Panelinha

O Facebook torna o compartilhamento fácil - talvez fácil demais, diriam alguns. Como a rede social de uma pessoa costuma ser formada não apenas pelos amigos de verdade, mas também pelos parentes e os meio-que-amigos, além dos meio-que-amigos de seus meio-que-amigos, é preciso tomar cuidado com aquilo que se publica. É verdade que o Facebook permite que o usuário defina grupos de amigos mais próximos, mas isto exige o constante monitoramento daquilo que pode - e não pode - ser compartilhado com alguém.

O AUTOR MORA NO VALE DO SILÍCIO, É PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SAN JOSE, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2012 | 03h09

Tudo isto criou uma oportunidade para startups (empresas iniciantes) cujo propósito é exatamente oferecer uma forma de compartilhamento mais íntima.

Redes sociais mais novas, como Path, FamilyLeaf e Pair, colocam uma série de restrições nos relacionamentos dos usuários. O Path, disponível apenas para smartphones, tem um limite máximo de 150 amigos. O FamilyLeaf é apenas para o usuário e seus parentes. E o Pair, também exclusivo para smartphones, é tão pequeno quanto uma rede social pode ser: uma única pessoa.

Nos Estados Unidos, o usuário médio do Facebook tem 245 amigos, de acordo com estudo publicado em fevereiro pelo Projeto Internet e Vida Americana, do Centro de Pesquisas Pew. Entretanto, a quantidade supera em muito o "número de Dunbar", os 150 relacionamentos que o antropólogo Robin Dunbar indicou serem o limite neurológico da capacidade do cérebro de administrar relações.

Dave Morin, que trabalhou no Facebook por quatro anos antes de fundar o Path, em 2010, explica a razão de ser de sua empresa: "O Facebook tornou normal a socialização na internet. Mas temos agora uma oportunidade de voltar à socialização íntima".

Morin diz ter telefonado para Dunbar, professor da Universidade de Oxford, para saber mais a respeito de suas pesquisas e teorias. Dunbar lhe disse que redes sociais se assemelham a um conjunto de círculos concêntricos: 150 pessoas constituem o limite exterior dos amigos, 50 formam o limite dos amigos de confiança, 15 delimitam os bons amigos e 5 formam os melhores amigos.

Quando o Path apresentou sua rede social, o número de amigos foi limitado em 50. Hoje, o Path tem mais de um milhão de usuários ativos, que têm em média 40 amigos. No ano passado, o Path aumentou o número máximo para 150 porque, como diz Morin, os usuários "gostam de ter mais espaço".

Ainda assim, a proposta central não mudou. Não é permitido formar subgrupos, e não há configurações de privacidade a serem ajustadas. Os amigos próximos estão dentro; todas as demais pessoas ficam de fora. "O usuário nunca se verá diante do problema de ter compartilhado algo com as pessoas erradas", diz Morin.

Familiar. O FamilyLeaf limita a rede de uma pessoa de maneira diferente: é apenas para parentes. Esta startup, fundada em fevereiro por Wesley Zhao e Ajay Mehta, ambos de 19 anos, recebeu financiamento e orientação do Y Combinator, fundo de Mountain View, Califórnia. Depois da abertura do site, a demanda logo excedeu a capacidade, e há uma lista de espera para entrar na rede.

Mehta diz que ele e Zhao usam o Facebook somente com os amigos. Quando seus parentes mais velhos querem participar, para manter o contato, pode surgir um problema: um momento de desatenção na hora de postar pode levar ao compartilhamento acidental com pessoas que o usuário não desejaria incluir. "Não quero filtrar meu perfil para dois públicos diferentes", diz Mehta.

Zhao acrescenta: "Trata-se de algo tão possível quanto pensar que podemos usar o Facebook tanto para os amigos quanto para o trabalho. É como se não houvesse necessidade para o LinkedIn". A rede de cada família tem um zelador designado, embora cada pessoa possa fazer parte da rede de mais de uma família.

A FamilyLeaf simplificou o compartilhamento de fotos, que pode ser feito simplesmente por meio do envio de imagens como anexo de um e-mail para o álbum da família mantido no site da FamilyLeaf. "Minha mãe entende pouco de tecnologia", diz Mehta. "Ela não consegue usar o Facebook, mas sabe usar o FamilyLeaf. O mesmo vale para meus avós, em Mumbai."

Já o Pair tem uma forma de compartilhar ainda mais restrita: com uma - e apenas uma - pessoa. A rede social teve inicialmente o financiamento do Y Combinator, e os cinco fundadores da Pair passaram os primeiros três meses do ano na região da baía de São Francisco, trabalhando com os sócios do Y Combinator. Os fundadores da startup são do Canadá, e três deles tinham namoradas que ficaram no país. Eles criaram o aplicativo Pair para se comunicar com as amadas distantes sem se preocupar com mensagens enviadas por engano.

Jamie Murai, um dos fundadores do Pair, dá um exemplo: nas mensagens de texto, "é preciso escolher o destinatário a partir de uma lista", diz ele. "Às vezes imaginamos que a mensagem está indo para a namorada, mas esta é na verdade encaminhada a um colega da academia. O usuário pode ter a certeza de que, ao pressionar o ícone do Pair, tudo aquilo que for compartilhado será realmente dividido apenas com a parceira."

Os usuários do Pair podem enviar uma mensagem de texto, fotografia ou vídeo para seus companheiros, mas o aplicativo tem também algumas características mais tradicionais. O par de usuários pode criar simultaneamente um desenho feito em conjunto, compartilhar uma lista de afazeres ou pressionar um botão para informar ao outro a sua localização. O Pair oferece também o "beijo de dedão": ao pressionar o dedão contra a tela, alinhado à imagem do par, os celulares de ambos vibram ao mesmo tempo.

O aplicativo do Pair, exclusivo para celulares, foi lançado em março e já registrava 100 mil usuários depois de apenas sete dias de funcionamento, de acordo com a empresa. (Atualmente, está disponível para iOS e Android.)

Se um relacionamento muda, o aplicativo pode ser reconfigurado para ter como par a nova pessoa mais importante de todas. "Inicialmente, mantivemos o foco nos relacionamentos românticos", diz Murai, "mas, na verdade, a rede está servindo também para aquele relacionamento mais importante dentre os muitos que temos na vida, que pode ser com o melhor amigo, com o filho ou filha".

Estas redes sociais de dimensões microscópicas e supermicroscópicas não concorrem diretamente com o Facebook, nem entre si. Uma pessoa poderia ser ativa em cada uma delas. Mas pode ser então que nos deparemos com um novo limite neurológico: o número máximo de redes sociais que o cérebro humano é capaz de administrar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Randall Stross

The New York Times

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