Papa critica ateísmo em segunda encíclica

Bento 16 afirma que doutrina foi responsável por crueldades e injustiças.

Valquíria Rey, BBC

30 de novembro de 2007 | 12h15

O papa Bento 16 fez uma dura crítica ao ateísmo em um documento divulgado nesta sexta-feira, dizendo que a doutrina, que nega a existência de Deus, foi responsável por algumas das piores formas de crueldade e injustiça na história moderna.A crítica foi feita na segunda encíclica criada pelo papa Bento 16, intitulada Spe Salvi (Salvos Graças à Esperança), publicada em oito idiomas, incluído o português e dirigida a bispos, padres e diáconos de todo o mundo e, por meio deles, a todos os fiéis.Dividido em oito capítulos, o documento de 75 páginas condena o mal e o pessimismo do mundo e diz que o homem deve ter esperança e fé em Deus.De acordo com o papa, o ateísmo dos séculos 19 e 20 é um protesto "compreensível" contra Deus "diante do sofrimento deste mundo".Mas, "a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz e nem é capaz de fazer é presunçosa e intrisecamente não verdadeira", afirma o papa no documento. "Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade instrínseca desta pretensão. Um mundo que deve criar a justiça por sua conta, é um mundo sem esperança."No capítulo em que fala sobre a transformação da fé-esperança cristã no tempo moderno, o papa cita outro notório ateu, o pai do comunismo, o pensador alemão Karl Marx, que "não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo"."O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanence sempre liberdade, inclusive para o mal", assinalou o pontífice. "Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis."No documento, o papa também faz um apelo em defesa do meio ambiente, pedindo empenho por um mundo livre dos venenos e contaminações que poderiam destruir o presente e o futuro.A segunda encíclica foi lançada quase dois anos depois da primeira, Deus Caritas Est - Deus é Amor, publicada em janeiro de 2006, que focava no amor erótico e espiritual nas relações pessoais, assim como no papel da Igreja em organizações de caridade. O pontífice trabalhou no documento durante suas últimas férias na localidade de Lorenzago di Cadore, na cordilheira alpina dos Dolomitas.As encíclicas são documentos pontifícios que tratam de temas doutrinários como fé, costumes, culto e doutrina social. Na Igreja Católica é o segundo documento mais importante, depois das constituições apostólicas.A terceira encíclica, sem data confirmada de publicação deverá ser de "caráter social", como confirmou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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