Papa divide Vaticano ao reabilitar bispo que nega o Holocausto

Fontes da Igreja dizem que a iniciativa reflete o estilo autocrático de Bento no comando da Igreja

Phillp Ullella, Reuters e AP

27 Janeiro 2009 | 14h24

O papa Bento XVI decidiu reabilitar um bispo que nega o Holocausto e o fez sem amplas consultas prévias no Vaticano, onde a decisão dividiu prelados que temem que ela tenha efeitos duradouros sobre as relações da Igreja com os judeus.       Veja também:  Canal do papa Bento XVI no YouTube  Vídeo: A polêmica entrevista do bispo Williamson  Vídeo: Papa fala sobre o Holocausto Grupo católico pede desculpas por membro que negou o Holocausto Judeus alemães condenam perdão a bispo que nega Holocausto  Papa visitará Israel mesmo após polêmica sobre bispo  Reabilitação papal de bispo que nega o Holocausto revolta judeus  Papa reabilita bispo que nega o Holocausto  Fala de cardeal gera tensão entre Vaticano e Israel Fontes da Igreja dizem que a iniciativa, que suscitou ultraje entre judeus e católicos progressistas, reflete o estilo autocrático de Bento no comando da Igreja de 1,1 bilhão de fiéis, comparado a seu predecessor, João Paulo II, que tinha o hábito de fazer amplas consultas prévias. "O papa obviamente não disse o que faria a pessoas que ele sabia que provavelmente seriam contra a decisão", disse uma fonte da Igreja, que, como outras, falou sob a condição de que fosse preservado seu anonimato. "Apenas um punhado de pessoas sabiam que essa decisão seria tomada, e, aparentemente, as pessoas envolvidas no diálogo com os judeus não estavam entre elas", disse a fonte. O bispo britânico Richard Williamson, um de quatro bispos tradicionalistas cujas excomunhões foram revogadas no sábado, deu no passado declarações negando a plena extensão do Holocausto dos judeus da Europa, ao contrário do que é afirmado pela maioria dos historiadores. Williamson disse à televisão sueca: "Acredito que não houve câmaras de gás" e que apenas até 300 mil judeus teriam morrido em campos de concentração nazistas, em lugar de 6 milhões." O cardeal alemão Walter Kasper, encarregado do departamento do Vaticano que trata da unidade dos cristãos e das relações da Igreja com os judeus, foi um dos muitos que não foi consultado de antemão. Em sua determinação em sanar um cisma interno da Igreja, o papa ou não levou em conta as implicações maiores que teria sua iniciativa, ou não se preocupou muito com elas. Ademais, conversas extra-oficiais com várias fontes da Igreja mostram que praticamente ninguém no Vaticano sabia que o bispo tradicionalista Richard Williamson tinha dado declarações negando o Holocausto. "Todo o mundo que conheço tomou conhecimento disso pela mídia", falou uma fonte. "Não fizeram a lição de casa necessária neste caso." Williamson já tinha dado declarações semelhantes em sermões no passado e também declarou que Deus não pretendeu que as mulheres vestissem calças ou estudassem na universidade, e que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram na realidade frutos de uma conspiração do governo norte-americano. Ficou claro que porta-vozes do Vaticano não estavam preparados para a enxurrada de críticas que se seguiu à reabilitação de Williamson, que, segundo alguns judeus, pode jogar por terra meio século de diálogo com o Vaticano. "A máquina de controle de crise do Vaticano foi acionada a pleno vapor", disse uma fonte. "Isso lembra o período pós-Regensburg", acrescentou a mesma fonte, referindo-se ao polêmico discurso de Bento feito em 2006 que os muçulmanos viram como insulto a sua religião. Fontes disseram na época que o papa também não fez consultas prévias nesse caso.   YouTube   O Vaticano intensificou sua defesa do papa Bento XVI em meio aos apelos contra a reabilitação do bispo que diz que nenhum judeu foi morto durante a Segunda Guerra Mundial.   A Radio do Vaticano levou ao ar um longo programa para marcar o dia de lembrança do Holocausto. Foi lembrada a visita de Bento XVI a Auschwitz, sua visita à maior sinagoga da Alemanha e outros pontos marcantes em que ele denunciou a "ideologia racista e insana" que produziu o Holocausto.   Vídeos desses momentos foram postados no canal do Vaticano no YouTube: youtube.com/Vatican   "Que a humanidade de hoje nunca esqueça de Auschwitz e outras 'fábricas da morte' em que o regime nazista tentou eliminar Deus e tomar seu lugar", disse Bento XVI durante sua audiência geral de 31 de maio de 2006, ao retornar a Roma da Alemanha.

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