Papa fará opção por uma Igreja simples

Para teólogos, o nome Francisco já sinaliza que pontífice quer Igreja ligada aos pobres

RIO, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h22

Ao escolher o nome de Francisco, o cardeal Jorge Mario Bergoglio já indicou o que prevê para o futuro da Igreja, avalia o teólogo Leonardo Boff. "Eu já fiz a profecia no Twitter, há uma semana, que o futuro papa ia se chamar Francisco. Porque Francisco não é um nome, é todo um programa de Igreja, uma Igreja simples, sem poder, ligada aos pobres, com uma relação totalmente diferente com a natureza."

Para Boff, o novo papa demonstrou que dará centralidade ao povo de Deus, e não à hierarquia. "Por isso, primeiro ele pediu ao povo que o abençoasse, e só depois é que vai abençoar o povo." Boff disse ainda que o argentino "superou a espetacularização do papa" porque, ao falar pela primeira vez com os fiéis, manteve-se parado, sério, sóbrio, "até parecia temeroso pelo peso do cargo".

Ele também acredita que a chegada de um papa da "periferia do mundo", onde habitam 60% dos católicos, enfatizará as experiências pastorais da América Latina, ligadas ao povo, à libertação e à opção pelos pobres.

Boff acredita que o novo papa descentralizará a Igreja e ativará o que o Vaticano II tinha criado e havia sido totalmente esvaziado pelos últimos dois papas: o Sínodo dos Bispos, corpo que se reúne a cada três anos para, juntamente com o papa, governar a Igreja, mas que tanto João Paulo II quanto Bento XVI deram a ele somente um poder consultivo e nenhuma função decisiva.

O arcebispo do Rio de Janeiro, d. Orani Tempesta também acredita que a escolha do argentino indica o olhar da Igreja para o continente latino-americano.

"A grande missão do papa é ser sinal de humildade da Igreja, animar católicos a ser bons católicos e organizar internamente a Igreja. Cada um traz consigo a fidelidade e também a novidade", afirmou d. Orani. Ele disse que conviveu com o cardeal Bergoglio em 2007, durante a 5.ª Conferência Episcopal Latino-americana, em Aparecida (SP).

O argentino foi responsável pela organização e resumo de todos os relatórios. "Ele é a alma do Documento de Aparecida. O Espírito Santo quis eleger alguém com espírito missionário e evangelizador que o cardeal Bergoglio demonstrou no Documento de Aparecida", disse Orani.

Prioridades. A escolha do novo secretário de Estado do Vaticano e as primeiras medidas administrativas do papa Francisco serão determinantes para os rumos da Igreja Católica, avalia o sociólogo Luiz Alberto Gomes de Souza, diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes (UCAM).

Para ele, o papa terá a difícil missão de "transformar o centro do poder romano" e pôr fim às disputas internas na Cúria.

"O grande teste será quem ele vai nomear secretário de Estado, que é uma espécie de primeiro-ministro. Imagina se ele mantém o Bertone como secretário de Estado. Aí não vai mudar nada", afirmou, referindo-se ao ex-secretário de Estado do Vaticano, apontado como um dos pivôs da crise interna na Igreja Católica que culminou na renúncia de Bento XVI.

Outro ponto delicado para o novo papa, na avaliação de Gomes de Souza, é o papel que ele teve durante o regime militar na Argentina entre 1976 e 1983. Ontem, depois do anúncio de sua escolha, as notícias do envolvimento do novo papa com a ditadura argentina multiplicaram-se pelas redes sociais.

O sociólogo não acredita que o cardeal tenha colaborado com os militares, mas reconhece que ele foi "ausente" no período. "E isso é um ponto negativo", afirmou. Organizações de direitos humanos estimam que cerca de 30 mil pessoas desapareceram durante o regime militar na Argentina. /ALFREDO JUNQUEIRA, HELOISA ARUTH STURM, LUCIANA NUNES LEAL

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