Papa quis atenuar conflitos

A viagem de Bento XVI a Londres, após a etapa de quinta-feira na Escócia, começou com um prólogo desastroso: às 5h45 de anteontem, a polícia deteve cinco homens - supostamente argelinos. Preparavam um atentado? "Sem comentários." Mas o incidente tem algo a ver com o papa, pois a polícia garantiu que ele não corria perigo. E Bento XVI tratou de comunicar que estava "muito tranquilo".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Assim se confirma que, para um papa, é perigoso ir a um país cristão, mas com maioria anglicana. Vale lembrar que a Inglaterra cindiu com a Igreja Católica em 1538 porque o papa da época não autorizou o divórcio do rei Henrique VIII. O imbróglio persiste há cinco séculos; Bento XVI é o primeiro papa em visita de Estado ao país.

Mas, esse episódio policial não foi o único tropeço. Embora o reino tenha feito o possível para o sucesso da visita, o papa não para de sofrer provocações. Comecemos pela mais estúpida: uma marca italiana instalou no percurso do cortejo cartazes com uma linda religiosa grávida saboreando um sorvete. Mais desagradável ainda: um documento de funcionários do Ministério das Relações Exteriores sugeriu que o papa celebrasse um casamento gay, inaugurasse uma clínica de aborto e distribuísse camisinhas com a marca Bento XVI. O responsável pela estupidez foi silenciado.

Mais chocante: dois intelectuais ateus, o biólogo Richard Dawkins e o escritor Christopher Hitchens, querem "a detenção do papa" na Inglaterra e seu julgamento por "crimes contra a humanidade", em aplicação da lei que permitiu, em 1998, intimar o ex-ditador chileno Augusto Pinochet.

Outra querela: a recusa de Bento XVI em ordenar mulheres. Na Inglaterra, o tema é sensível, não só porque a Igreja Anglicana tem pastores casados e mulheres no clero, mas porque, há um ano, a Igreja Católica fez uma proposta estranha: sugeriu a conversão dos anglicanos que desaprovassem a ordenação de mulheres. A atitude chocou os anglicanos. A rainha mandou um enviado para pedir explicações.

Há também as gafes da entourage. A mais absurda foi do cardeal alemão Walter Kasper. Ele declarou a uma revista que a Grã-Bretanha parece país do Terceiro Mundo. Não só os ingleses têm toda sorte de cores da pele, mas eles têm um "neoateísmo agressivo". Resultado: o cardeal não viajou "por causa de suas manifestações raciais".

A acidez dos ingleses se explica por muitas razões. A Igreja é criticada por causa das Cruzadas, da Inquisição, das guerras religiosas. A esses agravos, somam-se alguns padres pedófilos.

Na busca de lembranças ou pessoas que mais unam que separem essas Igrejas, encontrou-se um homem de postura ecumênica, próprio para mostrar que é possível uma reaproximação: o cardeal John Henry Newman, que é o principal motivo da viagem, pois Bento XVI vai beatificá-lo. Esse grande teólogo anglicano se converteu ao catolicismo. Foi das mais brilhantes inteligências cristãs do século 19. Inspirou o pensamento de Paulo VI e do próprio Bento XVI.

Assim, esse cardeal deveria ser a vedete dessa viagem. Mas eruditos ingleses (anglicanos, provavelmente) revelaram que Newman era suspeito de ser homossexual, por sua amizade com o padre Ambrose St. John.

São contrariedades que arruinaram a viagem e explicam por que as multidões não foram tão numerosas. Mas, com a visita, Bento XVI esperava atenuar os conflitos. Foi preciso coragem, que a ele não falta. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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