Papa terá de lidar com perseguição a cristãos

Documentos internos revelam relação tensa entre o Vaticano e países do Oriente Médio, berço do cristianismo

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h09

Cristãos perseguidos, igrejas impedidas de serem construídas e milhões de pessoas abandonando suas casas e países por conta de sua fé. Essa é a realidade vivida por católicos no Oriente Médio. Segundo documentos sigilosos do Vaticano, obtidos pelo Estado, a proteção aos cristãos nessa região terá de ser uma das prioridades do novo papa, sob o risco de o cristianismo estar seriamente ameaçado no local que lhe serviu de berço.

Nesta semana, um informe sigiloso apresentado pelo cardeal Béchara Boutros Raï, patriarca de Antioquia, aos demais príncipes do Vaticano escancarou a crise. A Santa Sé tem feito alertas aos governos de países árabes. Mas admite que pode estar perdendo a batalha para o que chama de "radicalização do Islã".

O cardeal Raï relatou que 1,5 milhão de iraquianos cristãos tiveram de abandonar o país desde a derrubada do regime de Saddam Hussein. A Primavera Árabe também estaria tendo seu impacto no Vaticano, que se diz preocupado com os cristãos do Egito ameaçados pela introdução de leis islâmicas. Na Síria, 60% dos cristãos de Aleppo deixaram a cidade. Em Homs, não sobrou nenhum. No Irã, os cerca de 25 mil cristãos seriam alvo constante de ameaças.

Nesse cenário, o Vaticano buscou manobras diplomáticas para proteger os cristãos. Em 2008, por exemplo, agiu para evitar que o ex-chanceler iraquiano Tariq Aziz, braço direito de Saddam Hussein, fosse condenado à morte. Aziz era o cristão de mais alto posto no governo e sua execução poderia ser vista como parte do ataque de radicais islâmicos contra cristãos.

Dois anos depois, foi a vez de o papa Bento XVI se reunir com o primeiro-ministro do Iraque, Nouri Al-Maliki, e apelar para que os cristãos fossem protegidos. Em outro encontro, o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, foi duro e alertou que não toleraria uma política de perseguição nem uma atitude do governo de ignorar o problema. Uma das alternativas seria incluir cristãos nas forças armadas.

Outra queixa: o governo ainda não havia atuado para garantir que propriedades de cristãos, confiscadas após a queda de Saddam, fossem devolvidas. Bagdá considerava transferir os cristãos a uma das zonas no país, o que foi considerado pelo Vaticano como uma ameaça, já que estabeleceria um "gueto cristão".

Durante sua visita ao papa, Al-Maliki foi convidado a visitar o túmulo de João Paulo II. Aceitou, mas exigiu que a imprensa não soubesse, para não ser atacado por radicais em seu país, por fazer peregrinação a outro santuário que não fosse Meca.

Em 2009, quando o embaixador iraniano Ali Akbar Naseri apresentou suas credenciais à Santa Sé, Bento XVI não hesitou em alertá-lo das ameaças que sofriam os católicos no país. Mas Alberto Ortega, responsável pelos contatos com o Irã no Vaticano, admitiu que o papa não faria condenações públicas às violações de direitos humanos com o temor de que Teerã retaliasse contra os cristãos no país.

Num documento de 2010, o arcebispo de Teerã, Ramzi Garmo, alertava diplomatas ocidentais que cristãos no Irã estavam sendo discriminados em seus trabalhos e que a Santa Sé era obrigada a pagar US$ 800 mil para usar um prédio destinado a um asilo. O local havia sido doado à Igreja antes da revolução do fim dos anos 70. Mas o atual governo passou a exigir "compensações".

Em 2010, o cardeal Jean Louis Tauran, responsável pelo Diálogo Inter-religioso dentro do Vaticano, fez críticas ao governo da Arábia Saudita por impedir a construção de igrejas, apesar da existência de 2 milhões de cristãos na região. No mesmo documento, Tauran atacou o fato de que o local de nascimento de São Paulo, na Turquia, tenha se transformado em um museu e acusa Israel de não respeitar locais sagrados do cristianismo.

Polêmica. O próximo papa também terá de lidar com a crise que Bento XVI criou em 2006 ao se referir ao Islã como uma religião violenta. O Vaticano admitiu o erro. Mas, nos documentos sigilosos, acusa o mundo muçulmano de ter criado uma situação de "chantagem" ao exigir repetidamente pedidos públicos de desculpa do papa por sua declaração. "As reações no Oriente Médio nem sempre são espontâneas", diz documento de 2006, insinuando uma manipulação.

Na ocasião, o Vaticano chegou a procurar o ex-presidente George W. Bush apelando para que ele não falasse do assunto em declarações públicas, num esforço de se distanciar das guerras lideradas por Washington e evitar uma pressão ainda maior sobre os cristãos na região.

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