'PAPAS NÃO RENUNCIARAM POR TEMEREM UMA TENDÊNCIA PERIGOSA'

Para vaticanista, ato de Bento XVI abre precedente para futuros pontífices

FILIPE DOMINGUES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h03

Bento XVI não é o primeiro papa das últimas décadas a considerar a possibilidade de renunciar, mas nenhum deles deixou o papado porque temia abrir um "perigoso precedente", avalia o vaticanista Andrea Tornielli, que trabalha para o jornal italiano La Stampa.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Tornielli afirma que os maiores desafios do sucessor de Bento XVI serão "falar com o mundo" e "reformar a Cúria Romana". Leia a seguir os principais trechos da conversa, realizada no saguão da sala de imprensa do Vaticano.

Após a surpresa diante do anúncio da renúncia de Bento XVI, a grande pergunta que as pessoas passaram a fazer é: Quais são os motivos que levaram o papa a tomar essa decisão? Ele disse mais de uma vez que foi uma conclusão pessoal. Mas, em sua opinião, a decisão foi mais política ou por motivos de saúde?

Acredito que é necessário se ater àquilo que o papa diz a respeito da sua condição física. Porém, certamente, como papa, ele precisa não somente do vigor físico, mas também do vigor do ânimo. Creio que os fatos que ocorreram nos últimos anos no Vaticano tenham um peso.

Entretanto, acredito que é necessário olhar a coisa com um ponto de vista global. Portanto, existe essa questão do cansaço físico, existe também, creio eu, um reconhecimento de que a situação é tal que ele não se sente mais em condições de poder responder.

As mensagens do papa nos últimos dias foram muito fortes, pedindo unidade na Igreja e o fim da "hipocrisia religiosa", por exemplo. Elas se referem ao contexto e aos problemas atuais da

Igreja?

Eu acredito que sim. Na mensagem que transmitiu na homilia da Quaresma, ele disse que existem também os riscos, essas divisões dentro da Igreja. Portanto, isso é um tema importante para o futuro da Igreja.

Essas mensagens são destinadas a algum grupo específico, como a Cúria Romana?

Creio que não. Creio que seja para toda a Igreja. É claro que existem aqueles que fomentam as divisões, isto é, aquelas pessoas que fazem as divisões aumentarem, mas há também quem, em vez disso, procure reunir. Porém, não há necessariamente um objetivo preciso nas mensagens.

Na minha opinião, o papa fala também à Cúria Romana, que nos últimos anos não deu um belo espetáculo, uma bela demonstração de unidade.

E possível que Bento XVI tenha consultado alguém antes de renunciar?

Ele afirma que tomou essa decisão com absoluta autonomia, portanto não acredito que o papa tenha consultado alguém. É uma decisão que ele tomou. Mas não sei se ele chegou a conversar com algum cardeal amigo. Isso pode ter acontecido. Porém, eu creio que seja uma posição formada com autonomia.

Sabe-se que a última renúncia papal ocorreu há quase 600 anos e nos últimos pontificados outros papas quiseram renunciar, mas não o fizeram. Qual é a diferença entre aqueles momentos e a situação atual da Igreja?

Já haviam pensado sobre a renúncia Pio XII, João XXIII… Tantos pensaram sobre a renúncia por causa de questões de saúde, de doenças. Paulo VI também chegou a pensar na aposentaria, por causa da idade. Ele próprio havia introduzido o limite dos 80 anos para os cardeais que ocupam cargos importantes.

A única diferença agora é justamente que esses papas do passado haviam pensado sobre a renúncia, mas nunca renunciaram. Principalmente porque temiam abrir um perigoso precedente. Bento XVI, ao contrário, renunciou. Essa é a grande novidade histórica. A diferença é que Bento XVI renunciou. Ele teve coragem e fez tudo de forma bastante histórica.

Então Bento XVI pode ter aberto um precedente para os próximos papas?

Certamente é um grande precedente.

Qual é exatamente a relação entre o papa Bento XVI e o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano? Bertone é apontado por alguns no Vaticano como um detentor de poder paralelo, mas o papa sempre o manteve no cargo.

Seguramente, o cardeal Bertone é atacado e está no centro de tantas polêmicas. Seguramente, a Cúria e a Secretaria de Estado do Vaticano sob o cardeal Bertone cometeram muitos erros. Isso tudo é verdade.

Porém, também é muito certo dizer que o papa, no final das contas, sempre confiou em Bertone. O cardeal sempre foi uma figura de confiança para o papa. E por isso o papa vem sempre renovando sinais de confiança, apesar dos limites de Bertone.

Quais são os desafios do próximo

papa?

O maior desafio é seguramente conseguir falar com o mundo. A Igreja precisa de um papa que fale para o mundo, também para fora da Igreja, e anuncie o Evangelho como uma mensagem positiva. Essa é a nova resposta, a nova evangelização.

E, depois, uma reforma da Cúria Romana. Uma reforma séria que transforme a Cúria Romana em algo mais simples. Não só como estrutura, mas eu diria também uma bela mudança no pessoal. Enfim, uma grande reforma da Cúria. É claro que cada papa altera a Cúria e coloca o seu time. Porém, as duas coisas mais importantes agora são saber falar ao mundo e fazer uma reforma na Cúria.

E sobre a questão da liturgia? Para promover unidade na Igreja e acolher fiéis tradicionalistas, que preferem a missa antiga, em latim, Bento XVI planejava reformar aspectos da liturgia católica.

A liturgia é uma das coisas que Ratzinger queria fazer. É a reforma da reforma. Porém, essa era uma coisa de Ratzinger. Não sei se o novo papa vai querer fazer a reforma da reforma. Nesse caso, depende de quem vier.

Outras reformas são muito discutidas dentro da Igreja, como o celibato dos padres e o sacerdócio feminino. Existirá espaço para pensar sobre isso no novo pontificado?

Eu creio que é preciso fazer uma distinção sobre os temas do celibato dos padres e o sacerdócio feminino, pois ambas as coisas são questões muito clericais, que não se referem verdadeiramente à realidade da Igreja. E, mesmo mudando as normas da Igreja - sobre o celibato dos padres é possível fazer, já sobre o sacerdócio feminino é um pouco mais difícil -, não significa que as pessoas vão voltar à missa. Não significa que as pessoas vão frequentar a missa porque o padre é casado e tem filhos. As pessoas não voltam para a Igreja porque atrás do altar tem uma mulher. As confissões cristãs que fizeram isso não mudaram em nada o problema da secularização. A Igreja Anglicana perdeu e continua perdendo fiéis. Porque isso é uma prioridade clerical, ou seja, para o clero. Hoje, é necessária uma virada não clerical.

Um outro discurso, por outro lado, é o tema do cisma silencioso dos divorciados e novamente casados. Evidentemente, como já disse o papa, é preciso procurar um modo de fazer com que eles não se sintam excluídos da Igreja. Isso é um outro tema. É preciso pensar em como anunciar o cristianismo de maneira positiva e propositiva.

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