Para decifrar os enigmas de Nietzsche

Estudo introdutório de Jean Granier ilumina a obra do pensador alemão

Regina Schöpke, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Quando o filósofo francês Jean Granier apresenta o alemão Nietzsche (1844-1900) como o "arauto do niilismo", mas também (e sobretudo) como o seu mais "heroico adversário", nada mais faz do que restituir a ele o seu verdadeiro lugar: o do autêntico pensador que combate, na carne e com seu próprio sangue, a decadência e a degeneração do homem. Sim... o niilismo tão verdadeiramente anunciado por Nietzsche - filósofo-tema de uma obra introdutória de Granier que está sendo lançada pela L&PM, com tradução de Denise Bottman - não representa a sua filosofia, mas antes a guerra que ela trava contra tudo aquilo que rebaixa o homem e o torna escravo do mundo e dos poderes estabelecidos.

De fato, talvez nenhum tempo retrate melhor a escravidão humana do que o nosso, apesar de toda a aparência de liberdade em que vivemos. É que, neste caso, se trata de uma escravidão consentida, aquela em que já não se luta mais contra nada: estamos diante de um homem sem expectativas, sem vontade, de um homem mergulhado no mais profundo desespero existencial. Débil e sem forças para encarar uma existência que, para ele, perdeu o seu sentido superior, o homem converteu-se num alienado que busca cada vez mais prazeres entorpecedores, única forma de fugir de si mesmo e de uma existência considerada pesada demais para carregar. Como diz o próprio Nietzsche, "a orgia não é filha da alegria, mas sim da ausência desta alegria".

Sem dúvida, vivemos hoje uma profunda crise de valores, que foi anunciada por Nietzsche e também, é claro, estimulada por ele (já que o filósofo teve um papel fundamental no desmoronamento dos antigos ideais da metafísica tradicional, dentre eles, as ideias de transcendência, de verdade absoluta ou de ser em si). Só que, para Granier - que foi professor da Universidade de Rouen e cuja tese de doutorado tratou da polêmica questão da verdade em Nietzsche -, o filósofo alemão não é um simples iconoclasta interessado em fazer ruir os antigos ídolos. Não, essa não é a sua intenção ou, pelo menos, não é a sua meta primordial. Sua meta como um filósofo-fisiologista que era (mais ainda do que um filósofo-poeta) é prescrever um remédio eficaz contra o que ele mesmo chamava de "a doença humana, por excelência", ou seja, este "grande cansaço" que tem feito do homem mais um espectador ressentido da vida do que o ator principal de sua existência. O remédio, diz Granier, é enfrentar a si mesmo, única maneira de ultrapassar o humano em nós (ou o que até hoje se chamou de humano, mas que apenas tem ocultado a terrível covardia de um ser que se voltou contra a vida e contra os próprios instintos). É preciso reinventar a humanidade, criar novos valores - diz Nietzsche. É preciso recuperar o "sentido da terra" que o homem perdeu em seu salto para a cultura.

Para Nietzsche, como diz Granier, a história do niilismo se confunde com a própria história do homem, e o que vivemos agora (e que Nietzsche não cansou de anunciar) é uma espécie de doença social, na qual o que há de mais fraco e de mais covarde venceu, tornando-se, enfim, a força vitoriosa que se enraizou em todos os setores da sociedade, especialmente no ensino. Uma "escola da decadência", é assim que Granier (a partir do próprio Nietzsche) chama este ensino que, há séculos, tem servido para domesticar o homem, para torná-lo dócil e manipulável (e, isto, enquanto procura aniquilar os seres apaixonados e vigorosos, ou seja, todos aqueles que não se curvam, que não se dobram facilmente: os dionisíacos, diria Nietzsche, que à custa do próprio sangue e apesar das dores continuam sendo os indomesticáveis amantes da vida).

De fato, o livro de Granier é, como dissemos, apenas uma introdução, ainda que rica e profunda. Trata-se, sem dúvida, de uma leitura digna de Nietzsche, cuja obra, segundo o próprio Granier, foi profundamente mutilada e incompreendida. Aliás, este parece ser mesmo o maior mérito de Granier: entender Nietzsche sem distorcê-lo, concordando ou não com ele. Granier, que define bem o método nietzschiano como um método interpretativo (que fez desabar a ideia metafísica de uma verdade absoluta e inquestionável), entende Nietzsche como um perspectivista, embora isso não queira dizer que exista no filósofo alemão um caos teórico e, sim, que o saber é em si mesmo problemático. Em outras palavras, o que existem são sempre interpretações mais ou menos legítimas do mundo e das coisas, múltiplos pontos de vista, múltiplos olhares que não se totalizam e menos ainda devem se constituir como dogmas.

Seja como for, apesar de não existir uma interpretação única das coisas, nem por isso se pode dizer que toda interpretação seja válida. É preciso que a interpretação não desfigure demais aquilo que ela deseja decifrar ou compreender. Podem existir múltiplas maneiras de entender Nietzsche, é claro, mas é fato que existem interpretações que são verdadeiras imposturas, algo que o próprio texto nietzschiano, se lido com o olhar de um filólogo (é assim que Nietzsche acredita ser a leitura mais válida), trata logo de derrubar. De fato, se a irmã de Nietzsche ajudou a distorcer as suas ideias, fazendo-as servir ao nazismo e ao antissemitismo, e se Heidegger ajudou a construir a leviana concepção de um Nietzsche metafísico, existem outros, como Jean Granier, Deleuze, Foucault, Clément Rosset, etc., que conseguiram iluminar e até decifrar alguns enigmas nietzschianos. Sim, Nietzsche é como a esfinge de Édipo: é "decifra-me ou devoro-te!".

Regina

Schöpke é filósofa, historiadora e autora dos livros Por Uma Filosofia da Diferença (Edusp/Contraponto) e Matéria em Movimento

(Martins Fontes)

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