Mohammed Sawaf/AFP
Mohammed Sawaf/AFP

Para enfrentar o Estado Islâmico

Christian Lohbauer, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2014 | 14h32

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Em 15 de setembro último, uma coalizão de 27 países declarou em Paris apoio ao pedido do governo do Iraque para recuperar as áreas ocupadas e controladas pelas forças do exército mercenário do Estado Islâmico (EI). O apoio inclui forças militares e intervenção aérea. Tratando-se de um pedido do Estado soberano iraquiano, faltava apenas uma aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que ocorreu no dia 25. A decisão do Conselho da ONU também obrigou todos os 193 Estados-membros a responsabilizar criminalmente cidadãos que viajem a outros países com o objetivo de se juntar a organizações terroristas. É assustador o número de estrangeiros, incluindo russos, franceses, britânicos, alemães, holandeses e até australianos, que se tornaram combatentes em grupos extremistas em diferentes países do mundo, como Afeganistão, Somália, Líbia, Iêmen e, mais recentemente, Iraque e Síria (ao lado das forças do Estado Islâmico).

A extrema violência e as práticas bárbaras dos combatentes do Estado Islâmico têm provocado reações da comunidade internacional que até pouco tempo atrás seriam impensáveis no contexto contemporâneo. Ainda no início de setembro, o parlamento alemão autorizou o envio de armas às forças curdas do norte do Iraque, algo que não acontecia desde o final da Segunda Guerra Mundial. Além dos norte-americanos, os franceses já haviam autorizado participação no esforço aéreo contra os extremistas quando o parlamento britânico também decidiu em sessão extraordinária participar dos bombardeios às posições do Estado Islâmico no Oriente Médio. 

Mesmo russos e chineses, cada um a sua maneira, preocupados com a expansão do extremismo islâmico dentro de suas fronteiras, tomaram consciência da virulência e agressividade deste fenômeno extremista e manifestaram seu apoio. A linguagem da força é bem entendida pelos regimes russo e chinês e há consciência de que é a única entendida pelos bárbaros sunitas. Chineses temerosos com a frequente instabilidade de comunidades uigures islâmicas na região de Xingiang no oeste do país, e russos estafados com as inúmeras comunidades islâmicas radicais oriundas do Cáucaso como da Chechênia, Ossétia do Sul ou Daguestão, não puderam impedir a ação militar internacional. Mesmo diante do apoio explícito de russos à carnificina que o regime de Assad vem praticando contra seus compatriotas, contra o Estado Islâmico não há como fazer jogo duplo.

Nas reações entre o mundo árabe, o apoio a sunitas não radicais no Iraque, que é o objetivo estratégico da ação da coalizão, não se fixa sobre bases homogêneas. O principal grupo sunita moderado da região é a irmandade Muçulmana, apoiada pelo Qatar e pela Turquia (que não pertence ao mundo árabe, mas sim ao mundo muçulmano). Sauditas, egípcios e os Emirados Árabes preferem apenas focar no combate aos radicais, mas não tolerariam um fortalecimento da Irmandade no Iraque.

E a equação ganha complexidade quando a maioria xiita do Iraque, apoiada pelos xiitas do Irã, todos avessos à expansão do Estado Islâmico, não foi convidada à conferência realizada em Paris. Embora tenham sido força definitiva para evitar que o Estado Islâmico ocupasse Bagdá há alguns meses, são vistos pelos norte-americanos como um risco de influência extrema que poderia colocar Bagdá sob o domínio iraniano e desequilibrar o poder regional. Turquia e Jordânia, por sua vez, procuram jogar um papel de baixo perfil. A Turquia, potência militar da região e membro da OTAN, teme reações de curdos dentro de seu território, depois de décadas de conflito com o partido clandestino do comunismo curdo, o PKK. A Jordânia, próxima do conflito sírio e vulnerável aos movimentos rebeldes contra Assad junto às suas fronteiras, prefere não ser protagonista de um tabuleiro que nunca esteve tão complexo e explosivo.

A intervenção militar da coalizão internacional tem todas as condições de reduzir e até eliminar a capacidade de expansão e dominação do Estado Islâmico do território significativo que ocupou. Com mais de um milhão de dólares de receita diária com a venda de petróleo roubado no mercado paralelo e com tecnologia, equipamentos e milícia treinada, o Estado Islâmico é um adversário bem mais complexo do que a Al-Qaeda ou outro agrupamento radical islâmico localizado na Nigéria, Indonésia, Filipinas, Argélia ou Afeganistão. A tarefa de eliminá-lo junto com suas práticas medievais será longa.

* Christian Lohbauer, doutor em Ciência Política, é membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional, GACINT/USP

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