Para Frears, a mulher é sempre forte

E afirma que a personagem Léa de Lonval é capaz de amor incondicional

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2010 | 00h00

Tudo começou quando o produtor Lester Persky adquiriu os direitos do livro de Judith Thurman e contratou o dramaturgo e roteirista Christopher Hampton para adaptar a história da jovem Colette. Hampton é um especialista em adaptações literárias. Entre seus roteiros famosos estão os de Ligações Perigosas, Mary Reilly e Desejo e Reparação. Ele também dirigiu Carrington, a partir de um rigoroso trabalho de pesquisa sobre o artista. Mas Colette decolou sob um mau signo. O produtor ficou doente - e morreu. A TV francesa anunciou uma minissérie sobre Colette e o outro projeto foi arquivado. Mas Hampton já estava picado pela "febre" Colette. Havia lido e gostado - muito - de Chéri. "Ela é muito maior escritora do que as pessoas pensam. Ficaria muito contente se o filme ajudasse a reavaliar e valorizar a riqueza e complexidade de sua prosa."

Hampton escreveu o roteiro de Chéri, mas nunca pensou em dirigí-lo. Era um projeto para seu amigo (e parceiro) Stephen Frears, que aderiu imediatamente. Hampton conta que não pensava em nenhuma atriz para o papel de Léa de Lonval, mas quando Frears e ele começaram a estudar possibilidades, o nome de Michelle Pfeiffer surgiu rapidamente. Com o aval da estrela, a montagem do projeto foi mais fácil. Numa questão de meses, o trio já estava filmando. O trio - porque Frears é um tipo raro de diretor que não dispensa a presença do roteirista no set. "Ele participa do roteiro com sugestões, mas Stephen só consegue visualizar a cena no set. Ele é o rei de pedir mudanças de última hora. No começo, isso me estressava. Quando fiz Carrington, com toda a ansiedade de um diretor estreante, não era raro chegar em casa, exausto, e encontrar um fax dele pedindo alguma mudança no roteiro de Mary Reilly."

Chéri concorreu no Festival de Berlim do ano passado, quando foram realizadas as entrevistas com o diretor, o roteirista, o jovem ator Rupert Friend, que faz o personagem-título, e a estrela - Michelle. No final, Chéri foi ignorado na premiação, o que depõe muito mais contra o júri presidido por Tilda Swinton do que contra o filme. Para mais de um crítico, Chéri é Ligações Perigosas 2. "É uma comparação preguiçosa", diz o diretor. "As similaridades são superficiais. Referem-se à França, ao sexo e à época, mas nem esta última é a mesma." Hampton concorda: "Ligações é sobre uma dupla, Merteuil e Valmont, que encara o sexo como uma guerra, da qual querem ser os estrategistas. Léa de Lonval é uma profissional do sexo que descobre o amor por meio de um afeto maternal, já que seu amante é muito mais jovem. Os personagens de Ligações querem destruir; ela constrói."

Hampton conta que nunca teve tanta dificuldade para compactar um roteiro. "Colette escreve como se fosse para cinema. Há uma alternância de planos gerais, que são suas descrições, muito precisas, e os primeiros planos, com diálogos que me encantam pela musicalidade. Ela tinha ouvido para as palavras, sim senhor. Você lê e simplesmente escuta o diálogo, como se a entonação fizesse parte da construção do personagem." Frears concorda, mas diz que o conceito não era atrelar Chéri à época, mas filmar Colette numa perspectiva mais moderna. "Por isso queria que Christopher ficasse no set. Às vezes, a música das palavras não funcionava e eu lhe pedia que mudasse alguma fala. Mas não pense por isso que improvisamos muito. Nada - quase sempre é só uma questão de tom."

Depois de Ligações e A Rainha, Frears volta-se mais uma vez para uma personagem feminina forte. "Para dizer a verdade, nunca conheci uma mulher realmente fraca. De maneira geral, elas são muito mais fortes e empreendedoras do que nós, homens." O repórter não se furta a lembrar de Margaret Thatcher, a ex-premier britânica de quem o diretor foi desafeto, criticando-a em seus filmes dos anos 1980. "Thatcher desempenhou um papel importante na formatação do mundo como existe hoje, mas nunca consegui admirá-la nem respeitá-la como estadista. Ela achava que, para ser forte, tinha de ser de ferro. Nunca seria capaz do afeto de Léa (de Lonval)."

A belle époque ressurge na tela em todo o seu esplendor. Frears é o primeiro a reconhecer que não é um perfeccionista como Luchino Visconti ou David Lean. Chéri não é o seu Em Busca do Tempo Perdido, mas a beleza, o luxo e a elegância estão na tela. "O segredo num filme desses é se cercar dos melhores - fotógrafo, figurinista, diretor de arte, gente que realmente tenha um olho para a beleza. Mas o objetivo não é buscar a beleza em si. Chéri recria um mundo de opulência, mas sob a aparência ele pode ser, e é, muito cruel. E isso é o que queria mostrar."

Serviço

Cheri (Inglaterra-Alemanha/ 2009, 93 min.) - Comédia romântica. Dir. Stephen Frears.

14 anos. Cotação: Bom

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