Para 'jolokiano', pimenta ardida é refresco

Olívia Fraga,

01 Julho 2010 | 09h36

Paixão. Marçal adora o sabor da jolokia. Na primeira vez, fez uma degustação cuidadosa, evitando que a pimenta encostasse na ponta da língua.

 

 

Logo que foi anunciada, em 2000, como a variedade mais ardida do mundo, a Bhut jolokia se espalhou feito vírus na internet. Foi assim que o fotógrafo paulistano Fabiano Batista Marçal pôs as mãos em meia dúzia de jolokias. O resultado? Coração a mil, suor e olhos lacrimejando. Começava aí seu caso de amor com a pimenta-fantasma.

 

A paixão foi tão forte que, quando foi experimentá-la, resolveu gravar um vídeo registrando sua reação, depois compartilhado pelo YouTube. Amigos - e até a ex-mulher - foram incitados a prová-la. Há três meses, empenhado em propagar o poder da jolokia, Marçal criou o site http://www.osjolokianos.com.br/.

 

Antes de ser seduzido pela Bhut jolokia, o fotógrafo vivia em supermercados e empórios à procura de "pimentas que fossem realmente ardidas". Já gostava de sofrer um pouquinho. Habaneros e red savinas não faziam mais efeito. "As nacionais não são assim tão absurdas", diz.

 

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Ao entrar em um site brasileiro de vendas, Marçal foi atraído por um anúncio de sementes de "pimentas nucleares", termo genérico que agrupa as manipuladas e ultra-ardidas, como trinidad scorpion, fatalii e 7pod - todas com 1 milhão de unidades Scoville. Plantou todas, mas nenhuma vingou.

 

Foi falta de experiência, acredita ele. "Até que encontrei Carlos Velazco, do Planta Mundo (plantamundo.com). Além de sementes, ele me enviou alguns exemplares da jolokia plantada pelo Chile Pepper Institute, no Novo México, um pouco menores que a da Índia, a R$ 24 cada fruto", conta Fabiano.

 

A partir daí, todos os passos estão registrados na internet. Marçal adorou o sabor da jolokia. Fez uma degustação cuidadosa, evitando que a pimenta encostasse na ponta da língua. Demorou para engolir, para poder falar enquanto provava. A pimenta pica, arranha, provoca ondas de calor, crises de tosse e coriza. Alguém duvida de que pode virar arma química? "Minha ex-mulher comeu um quarto de uma jolokia desidratada e quase morreu. O melhor foi um amigo do meu vizinho, que ficou 11 minutos sem conseguir falar", diz.

 

Marçal não se deu por satisfeito. Queria provar o fruto inteiro, original, de nacionalidade indiana. Encontrou uma carioca vendendo uma jolokia de Tezpur a R$ 15. "Foi aí que realmente comi uma whole pod, como chamamos a pimenta inteira, in natura, com sementes e fresca."

 

Sobreviveu.

 

Hoje o site Jolokianos vende molhos de Bhut jolokia para o Brasil e exterior. "Há uma grande comunidade de fanáticos por pimenta no Brasil. Trocamos receitas, pimentas, molhos e sementes. Queria ter mais espaço em casa para plantá-las", diz Marçal, que agora é degustador de pimentas e as compra diretamente de produtores brasileiros.

 

 

 

EU BEM QUE TENTEI

 

Por Olívia Fraga

 

Não tenho nada contra pimenta ardida. As malaguetas visitam meu prato vez ou outra. Naquele afã de testar limites, encomendei algumas jolokias a Cyro Abumussi (serviriam para foto e degustação). Vai que não é tão ardida assim... E lá fui. Passei a faca em um pedaço. Os olhos lacrimejaram na hora: uma gotícula de nada deve ter espirrado com o corte. Medo. Com metade do estrago já feito, resolvi encostar o dedo na língua. Outro baque. A salivação aumentou, os lábios incharam. Até tossi de tanto ardor. Faz 12 horas e - você pode não acreditar - meu dedo continua queimando. Hoje o pedaço cortado repousa tranquilo na geladeira. Só não sei quando vou ter coragem de comê-lo.

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