Para não lembrar de não esquecer

As coisas somem mesmo continuando vivas. Nem tudo que queremos salvar está ameaçado. Paradoxal? Salvar pode ser apenas lembrar. Práticas esquecidas, receitas que ninguém mais executa são como partituras: se a música não for tocada, não existe. O que não comemos, desaparece do nosso dia a dia. Às vezes, não basta estar fora da lista de espécies em risco de extinção para continuar existindo. É bom repetir um doce ancestral, ou usar um utensílio aposentado pelo eletrodoméstico. Pode haver um prazer oculto ali.

28 Setembro 2011 | 20h19

“Amanteigados, camafeus, ninhos, fatias de braga, bem-casados, olhos-de-sogra, pastéis de santa clara. Mesmo considerados Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul, (projeto de lei 201/2003 aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa), os doces clássicos de Pelotas estão ameaçados. Apenas alguns poucos e pequenos estabelecimentos da cidade mantêm ainda hoje o estilo caseiro e artesanal de produção dessas joias culinárias, herança portuguesa e açoriana.

Os processos semi-industrializados estão tirando o glamour e a delicadeza que os consagraram. Os doces de Pelotas e quem ainda os prepara à moda tradicional merecem atenção especial”

Carla Pernambuco

Chef do Carlota

“Defender as tradições culinárias brasileiras é fazer uma viagem até meados dos anos 80, tempo em que balas de coco e alfenins ainda coloriam as festas de aniversário. Essas técnicas delicadas e precisas de trabalho com o açúcar estão quase extintas, seja pela mudança de cultura, pela industrialização dos alimentos ou pela mudança de hábitos. Mas merecem atenção e respeito pela relevância de sua história, anterior à colonização portuguesa no Brasil - é herança deixada pelos

árabes em Portugal”

Carolina Brandão

Chef do Carlota

“Lamento a perda de alguns costumes, como embrulhar a tapioca molhada em folha de bananeira. Começam a achar pouco higiênico usar a folha, e os vendedores a substituem por saco plástico. As broas de caeté, de Silveiras, são outro exemplo de perda da tradição em nome da higiene. Ainda são feitas na folha, mas na hora de servir a folha vai para o lixo e as broas são empacotadas em isopor e filme plástico”

Neide Rigo

Nutricionista

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.