Para selecionar, Santa Cruz usa pasta feita com ajuda de professor

Pais que tentaram vaga para os filhos afirmam que colégio sabe, mas não coíbe prática; escola diz que age dentro da lei

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2012 | 03h07

Impedida de realizar provas para o ingresso no ensino fundamental, o Colégio Santa Cruz, zona oeste de São Paulo, adotou um novo sistema de seleção que envolve a entrega de um portfólio de atividades das crianças. Mas a ânsia dos pais de não perder a vaga tem feito com que eles contratem professores particulares para ajudar os filhos na preparação do material. Alguns pais reclamam do nível de competição e também da escola, que sabe da prática e não a impede.

Para o ingresso em 2012, a escola pediu desenhos, textos e também registros matemáticos. O colégio afirma que ainda não definiu o processo de 2013.

O treino das crianças não é barato. Uma das professoras cobra R$ 170 por aula. "Durante alguns meses ela direcionará os exercícios com foco na preparação da pasta", contou uma das mães.

Já existe uma rede de professores indicados e a ideia de que parte deles tem mais chance de sucesso. "É um absurdo uma criança de 5 anos passar por um treinamento. Preferi não contratar e minha filha não passou. Sem ressentimentos, porque ela está ótima na escola nova, mas as pastas que tiveram apoio estavam diferentes", disse um dos pais, que pediu para não ser identificado. "A escola sabe e acha normal."

Uma dessas profissionais contratadas é uma psicopedagoga com mais de 30 anos de carreira. Ela ficou responsável por seis pastas no ano passado. A professora defende que o trabalho é de apoio, mas pede para não ter o nome divulgado. "O que eu tenho feito é um trabalho paralelo ao da escola. Os colégios têm momentos de alfabetização muito diferentes, então a gente adequa com o que a escola quer", afirma.

Ana contratou essa professora para uma das filhas. Também pediu para não ser identificada. "Qualquer estudo a mais é positivo. E ela estudava em escola bilíngue, por isso fez o reforço." Segundo ela, não houve estresse com as aulas.

A psicopedagoga Katia Seifert, que dá aulas particulares há 23 anos, diz que já foi procurada algumas vezes para esse trabalho, mas recusou. "Costuma ser um curso de um ano inteiro, pesado", explica. "Cada criança tem o seu tempo de aprender, não é saudável que seja induzida."

Crítica. A procuradora Eugenia Augusta Gonzaga, autora da ação do vestibulinho, critica a prática. "Isso configura seleção porque a finalidade é verificar se a criança está preparada para o ensino fundamental."

Em nota, o Santa Cruz diz que "não utiliza o termo 'vestibulinho' para designar o amplo processo de ingresso de novos alunos", que envolve várias etapas. A escola afirma que respeita as determinações legais. / C.L e P.S

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