Para sobrevivente do Legacy, crise aérea tem raiz ''sistêmica''

Joe Sharkey criticou excessiva ''politização'' do setor aéreo no país.

BBC Brasil, BBC

19 Julho 2007 | 13h01

O jornalista americano Joe Sharkey, um dos passageiros do jato Legacy que se chocou com um Boeing da Gol em 2006, disse em uma entrevista a um programa da BBC que a crise aérea no Brasil tem uma raiz sistêmica, o excessiva "politização" do setor no país."Acho que o problema - pelo que entendo, e tenho seguido isso de perto - é sistêmico, é a operação, não apenas do sistema de controle de tráfego aéreo, mas de aeroportos também", disse Sharkey, colunista do jornal americano The New York Times, ao programa The World."É altamente politizado, há muito dinheiro envolvido, há uma quantidade incrível de interferência do governo na operação do que, na maioria dos países, não é um sistema altamente politizado."Na mesma entrevista ao The World, Sharkey afirmou que a busca por culpados pelos dois últimos grandes acidentes aéreos no Brasil desvia a atenção de uma questão que preocupa mais, a segurança do setor no país. Ele disse que "todo o esforço das autoridades no Brasil - incluindo a Polícia Federal e o governo - parece ter sido para encontrar culpa"."Para o meu espanto, o que aconteceu desde então (o acidente com o Boeing da Gol) foi um exemplo clássico do que toda autoridade de investigação em aviação afirma que não deve ser feito, que é politizar e criminalizar um acidente.""Não trataram o que para mim é a questão central, que é a condição de falta de segurança manifesta no Brasil, nos aeroportos e no controle de tráfego aéreo. Não é apenas o problema humano, dos funcionários e da forma como são comandados, mas também a (questão da) tecnologia (usada nos aeroportos e no tráfego aéreo), que tem sido muito criticada por seus defeitos", disse o jornalista.Sharkey lembrou na entrevista o indiciamento dos dois pilotos americanos do jato Legacy e os problemas com os controladores de vôo."Eles (os controladores) são funcionários militares. Eles ganham pouco, eles não estão bem em termos de salário ou em termos de treinamento. Eles fazem coisas como - acho isso incrível - treinamentos militares quando estão trabalhando, marchar por aí como soldados, e coisas assim."O jornalista americano afirmou que ficou "horrorizado" ao ficar sabendo do novo acidente com o Airbus da TAM."A primeira coisa que vi (...), depois que descobri os detalhes sobre o acidente, foi que as autoridades em São Paulo já estão pedindo uma investigação criminal, pedindo que outros setores da aviação lancem suas próprias investigações criminais.""Eles criminalizam isso logo do início. Parece-me que é um erro-chave que estão cometendo pela segunda vez desde 29 de setembro", disse.Desde o acidente de setembro passado, que matou todas as 154 pessoas a bordo do Boeing 737 da Gol, o jornalista tem feito críticas constantes às autoridades brasileiras.Numa das mais recentes, divulgada por Sharkey em seu blog nesta semana, ele apontou o que considera terem sido erros de tradução num relatório preparado sobre o acidente do ano passado.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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