Para UNB, um era branco e outro, negro

Idênticos e filhos de casal inter-racial, eles foram separados pelo sistema de cotas em 2007

O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h05

Há cinco anos, os irmãos Alan e Alex Teixeira da Cunha foram o centro de uma polêmica envolvendo as ações afirmativas. Filhos de pai negro e mãe branca, os gêmeos idênticos tentavam disputar uma vaga no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) por meio do sistema de cotas raciais.

Na época, a UnB considerava apenas o critério de raça, e não o socioeconômico, para a seleção dos cotistas. Após a submissão de fotografias à banca avaliadora da universidade,  Alan foi considerado negro e Alex, não. Com a repercussão do caso, a UnB resolveu rever a decisão e incluí-lo como aluno cotista.

Os gêmeos não passaram no vestibular de 2007, ano da polêmica. Alan acabou entrando no curso de Educação Física em 2008 e Alex optou por Ciências de Alimentos, oferecido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Hoje, aos 23 anos  e com o diploma em mãos, Alan continua morando no Distrito Federal. "Sempre quis estudar Educação Física, mas terminar o curso não foi fácil. Não tenho facilidade para alguns assuntos. Mesmo assim, nunca reprovei."

Depois de cumprir a rotina de aulas integrais e estágios em academias de ginástica à noite, ele resolveu se concentrar apenas em concursos públicos. "Estou focado no concurso de agente da Polícia Civil", diz Alan.

Essa prudência ao traçar os objetivos é uma das marcas de Alan. "Ele sempre foi o mais sério. O Alex tem outro gênio, é mais expansivo, mais falador", comenta a mãe dos jovens, Maria de Fátima Teixeira.

Foi esse caráter de expansividade que levou Alex a se aventurar além das fronteiras do Planalto Central. "Queria fazer o curso de Engenharia de Alimentos, que a UnB não tinha. Quando o câmpus da UFV passou a oferecer, resolvi ir para lá. E, no ano que vem, me formo", comenta.

De acordo com ele, a decisão de mudar de cidade o deixou mais maduro. Assim como Alan, Alex sempre sentiu falta da companhia do irmão."Eles sempre foram muito próximos, muito unidos. Eles se falam pela internet todos os dias", diz a mãe.

Posição mantida. Agora distanciados do debate que questiona a autodeterminação da raça na nova Lei de Cotas - ideia fortemente endossada pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante -, a opinião dos gêmeos sobre a questão permanece igual.

"De 2007 para cá já passou muito tempo, mas continuo com o mesmo pensamento: as cotas devem ser destinadas apenas a quem não tem condições de pagar uma universidade privada", diz Alex. "Não acho o processo (de seleção por cor de pele) justo. Na UnB havia pessoas brancas que passavam como cotistas. Até fiquei sabendo de uma menina ruiva e de um japonês que entraram nas cotas", relembra Alan. / D. L. e MURILO BOMFIM, ESPECIAL PARA O ESTADO

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