Paraguai pede ao Brasil que esclareça ameaça a 'brasiguaios'

O governo paraguaio desafiou na quinta-feira as autoridades do Brasil a apresentarem casos concretos de produtores agrícolas brasileiros que denunciam intimidações de trabalhadores rurais locais, assunto que ameaça deixar as relações tensas entre os dois países. O Brasil expressou preocupação com denúncias de vários brasileiros residentes no Paraguai sobre ameaças e ataques por parte de trabalhadores rurais "sem-terra", que questionam o modelo produtivo de agricultura em grande escala desenvolvido por eles. O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, disse que desafiava o chanceler brasileiro, Celso Amorim, a expor os casos dos chamados "brasiguaios" após a divulgação em Assunção de um informe de Brasília alertando membros do Congresso sobre a situação de seus compatriotas. "Eu desafio o chanceler Amorim a apresentar caso por caso os questionamentos que têm e nós vamos responder caso por caso esses questionamentos", disse Filizzola a jornalistas. "Convido o chanceler Amorim para que, através de sua embaixada, nos informe os questionamentos concretos, mas que não faça questionamentos gerais", acrescentou o ministro, um dos principais colaboradores do presidente Fernando Lugo, logo após seu habitual encontro matinal com o mandatário. Os "brasiguaios" encontram-se instalados principalmente na fronteira entre os dois países, no leste do território paraguaio, numa zona de expansão do cultivo da soja, principal produto de exportação do Paraguai. Organizações camponesas paraguaias garantem que muitos desses produtores ocupam terras de forma ilegal e deveriam ser despojados das mesmas, seguindo a reforma agrária que o governo do socialista Lugo colocou recentemente em marcha. ENCONTRO BINACIONAL O chanceler paraguaio, Alejandro Hamed, anunciou uma reunião com Amorim durante este mês para tratar do assunto. "Lamentavelmente no campo acontecem coisas (...) Eles se preocupam com a situação de seus compatriotas e nós estamos trabalhando para normalizar essa situação", disse o ministro à mídia local. "A situação dos 'brasiguaios' é complicada. Vocês sabem que não há cadastro, não sabemos se realmente são proprietários (...) é um tema complexo que eles (as autoridades brasileiras) conhecem muito bem", acrescentou. Em seus primeiros meses como governante, Lugo enfrentou a pressão de associações de produtores agropecuários, setor economicamente influente que pede segurança para trabalhar, assim como de organizações de trabalhadores rurais pobres que o apoiaram e exigem terras para cultivar. O conflito entre os dois setores já provocou queima de plantações, enfrentamentos armados e ocupação de grandes propriedades nos últimos meses. Além disso, Paraguai e Brasil levam adiante uma complexa negociação sobre o preço da energia elétrica produzida pela usina binacional de Itaipu, após a reclamação feita por Lugo para que se aumentem os benefícios ao Paraguai.

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