Paraguaios esperam mudanças rápidas com novo governo

Saúde, educação e emprego são prioridades para o povo, diz pesquisa.

Alessandra Corrêa, BBC

15 de agosto de 2008 | 08h03

Ao tomar posse nesta sexta-feira, o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, inicia um governo cercado de expectativa em um país que passou os últimos 61 anos sob o comando de um único partido.Uma pesquisa realizada pela consultoria paraguaia First Analysis indica que 75% da população acredita que o país vai melhorar com o novo governo, e quase 60% das pessoas consultadas esperam resultados dentro de um período de até dois anos.Moradores da capital paraguaia, Assunção, ouvidos pela BBC Brasil confirmam a tendência verificada na pesquisa. Todos os entrevistados afirmaram esperar que Lugo promova mudanças e renovação depois de seis décadas de governo do Partido Colorado."Tenho 40 anos e sempre votei no Partido Colorado. Mas em 60 anos eles não mudaram nada. Por isso, desta vez, votei em Lugo", disse o taxista Rafael Bento.Bento disse acreditar que Lugo vai mudar o país e "dar saúde e educação" para seus filhos. Segundo o diretor da First Analysis, Francisco Capli, o desejo do taxista reflete a expectativa manifestada na pesquisa, que ouviu mil pessoas em todo o país.Capli disse à BBC Brasil que saúde, educação e emprego aparecem em primeiro lugar entre as prioridades dos paraguaios."Sete em cada 10 consultados acreditam que Lugo vai melhorar esses setores em até dois anos", disse Capli.CongressoSem maioria no Congresso e com uma coalizão de governo na qual há disputas internas entre diferentes correntes, o novo presidente terá o desafio de cumprir suas promessas e corresponder às expectativas da população.Analistas afirmam que Lugo terá de negociar tanto com a oposição quanto dentro do próprio governo para conseguir aprovar reformas.Os setores eleitos pelos paraguaios como prioridade enfrentam graves problemas.De acordo com Capli, o sistema de saúde paraguaio "é um desastre", com falta de hospitais e serviços de emergência, e cerca de 65% dos paraguaios tem apenas cinco anos de escolaridade.No setor de emprego, calcula-se que durante o último governo o subemprego passou de 22% para 26%.A pesquisa indica que os paraguaios não querem saúde, educação e emprego de maneira genérica, mas esperam resultados práticos para suas famílias."Espero, sobretudo, que o presidente nos dê mais emprego", disse a dona-de-casa Aida Alvarez, de 50 anos, que afirma não ter votado em Lugo, mas estar confiante em seu governo.Assim como a dona-de-casa, muitas das pessoas ouvidas pela BBC Brasil em Assunção disseram ter votado em outros candidatos, mas mesmo assim têm grande expectativa em relação ao novo presidente.Lugo, um ex-bispo católico identificado com movimentos sociais de esquerda, obteve uma vitória histórica nas eleições de abril ao derrotar a candidata colorada, Blanca Avelar.Ele conseguiu o sucesso nas urnas como representante de uma coalizão criada para fazer frente aos colorados, a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol), que reúne desde o Partido Liberal (PLRA), o mais tradicional do Paraguai ao lado do Partido Colorado, até pequenas siglas e movimentos de esquerda.Segundo analistas, apesar da identificação do novo presidente com a esquerda, ele foi eleito por seguidores de diversas ideologias, que tinham como objetivo comum o desejo de mudança no governo.CorrupçãoMuitos dos entrevistados pela BBC Brasil disseram esperar que o novo governo combata a corrupção, problema considerado crônico no Paraguai."Não votei nele, mas creio que está começando bem e espero que consiga cumprir suas promessas", diz o economista Pedro Galeano, de 26 anos.Galeano afirma que os paraguaios têm uma grande expectativa de que esse governo será "diferente", especialmente no que diz respeito ao combate à corrupção.Na pesquisa realizada pela First Analysis, porém, o combate à corrupção não aparece com tanto destaque quanto saúde, emprego e educação."A corrupção é um problema muito debatido no país, pela imprensa, mas as pessoas querem é solução para problemas mais urgentes", disse Capli.Segundo o consultor, Lugo inicia seu governo com uma imagem muito positiva e a aceitação de cerca de 90% da população.Sua posse é considerada por analistas o início de uma nova fase na transição democrática do país: a alternância de poder.A transição democrática no Paraguai começou em 1989, quando o general Alfredo Stroessner foi derrubado depois de 34 anos no poder.No entanto, apesar da democratização, o governo permaneceu nas mãos do partido de Stroessner, o Colorado.Em Assunção, as ruas já estão enfeitadas com bandeiras para a cerimônia desta sexta-feira. No centro da capital, o policiamento foi reforçado.A posse de Lugo será acompanhada por 11 chefes de Estado, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chega ao Paraguai na noite desta quinta-feira. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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