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Gilles Lapouge
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Paris, China

Nuvem poluente baixa na capital francesa e ao se dissipar deixa no lugar uma poluição de opiniões

Gilles Lapouge,

22 Março 2014 | 16h00

Na semana retrasada os parisienses de repente começaram a se sentir chineses. O céu estava claro, sem uma nuvem, completamente azul, mas de um azul rarefeito, sob um véu de pó muito fino. Gargantas irritadas. Tosse. A população ficou meio apreensiva, mas não a ponto de usar máscaras antipoluição. Só quem envergava essas máscaras brancas eram os japoneses, que, em batalhões, fotografam, como todos os dias, a Torre Eiffel.

Era quinta-feira, 13 de março. Autoridades, especialistas, jornalistas, senhores e senhoras se puseram a pensar. Que fazer para sobreviver àquela poluição? O ideal seria que viesse uma boa chuva, ou um golpe de vento. Mas o céu estava imutável, e os ventos, definitivamente mortos. Os homens é que teriam de se encarregar do assunto.

Passaram-se os dias. Os debates rolavam. Cada um tinha uma ideia. De repente, quatro dias e muita angústia depois, o governo decidiu atacar a nuvem poluidora com artilharia pesada. Foi decretado um rodízio de carros. Nos dias ímpares, trafegariam só carros com placa de final ímpar. Os outros ficariam na garagem. Nos dias pares, o inverso. Claro que a essa regra foram abertas múltiplas exceções, cujo enunciado seria maçante.

Segunda-feira foi o grande dia da contraofensiva dos homens contra o ataque das partículas finas. E foi um sucesso. A poluição desapareceu. O sucesso foi ainda mais fulgurante porque a nuvem, cansada de não ver nenhuma reação do governo durante dias, teve a ótima ideia de começar a se dissipar por conta própria exatamente nessa segunda-feira, graças a uma pequena brisa.

Infelizmente, um segundo tipo de poluição formou-se logo em seguida - dessa vez, política, pois o combate empreendido pelo governo contra a nuvem poluidora permitiu aos diferentes partidos se digladiarem.

A direita criticou a morosidade do poder socialista que, durante quatro dias, permaneceu inerte para, finalmente, mobilizar seu exército antipoluição no mesmo dia que ela resolveu desaparecer sozinha, furtivamente.

O jornal Le Figaro se regalou. "Um brinquedo ecológico", vociferou em editorial. De qualquer modo, para o Figaro tudo que os socialistas fazem é horrível. Portanto, o rodízio de automóveis foi simplesmente um novo horror que veio se juntar a outros.

Felizmente uma nova frente de batalha se abriu, no centro do poder, entre socialistas e ecologistas. Para os socialistas, o rodízio de veículos era ridículo e eles berraram. É preciso entender sua posição: há anos os ecologistas, embora no governo, têm de engolir as decisões pouco ecológicas adotadas pelo governo socialista. E protestam a cada vez. Mas os líderes ecologistas são tão mal equipados no plano intelectual que Hollande jamais leva em contra seus reclamos ininteligíveis. No caso da poluição, eles acharam que chegara sua hora. Deram graças à nuvem empesteada e trovejaram. Sobretudo porque na França neste domingo serão realizadas eleições municipais. A onda de poluição, portanto, era uma sorte. Eles enfim se fariam ouvir. Mas o resultado foi que, do lado do poder, socialistas e ecologistas se trucidaram.

Graças a Deus, cabeças mais pensantes também se exprimiram. Por exemplo, os médicos. O dr. Dautzenberg, famoso pneumologista, anunciou que em termos de saúde o rodízio não serve para nada, sobretudo quando é adotado no fim do episódio da poluição e não no primeiro dia. Sua opinião foi aprovada por colegas: "Os níveis de poluição na França estão longe dos da China. A exposição a partículas finas é infinitamente menos nociva que o fumo", disse um. Outro pneumologista afirmou que a nuvem é "uma ninharia em comparação ao tabaco, na proporção de um para um milhão. Nos últimos dias não constatamos aumento de consultas por pessoas sofrendo de insuficiência respiratória, nem mesmo no caso de asmáticos".

Logo, o perigo foi bem exagerado. Mas é verdade que a França tem pontos fracos nesse campo. Sobretudo a importância que ela dá ao diesel, uma substância terrível e cancerígena. O diesel é o principal emissor de partículas finas, que são as mais nocivas. Em Paris, um quarto das partículas finas é lançado no ar pelo tráfego rodoviário, sobretudo o movido a diesel, e essas emissões chegam a 65% nas marginais.

Mas mesmo no caso do diesel a França conseguiu criar uma polêmica. Alguns aragumentam que depois de 2011 os veículos europeus possuem filtros, o que permitiu a um especialista do Inserm (Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica) concluir que "o impacto do diesel sobre a saúde é secundário". Infelizmente outro especialista afirmou o contrário: "A poluição custa oito meses de vida dos franceses".

Ah, os sábios... É preciso mandá-los de novo à escola.

Pessoas mais sérias avaliam que o rodízio não é uma má ideia em períodos de poluição, mas é caro e os resultados são limitados. Não seria mais inteligente instituir, como em outros países, pedágios na entrada das grandes cidades (Londres, Oslo, Estocolmo, Milão, etc.)?

Mas, principalmente, serão necessárias soluções de fundo. De longo prazo, não remendos. Soluções como rever o urbanismo e a disposição do território; reduzir as distâncias entre o local de residência e o de trabalho; modificar a relação com o carro; pensar o carro como "uso" e não "propriedade"; desenvolver o sistema de compartilhamento de veículos; tentar pôr fim a essa relação amorosa, passional, do francês com seu carro; organizar um sistema fiscal ecológico e criar uma "ecotaxa" rodoviária para desenvolver os transportes alternativos. Muito simples! Uma pequena revolução cultural, nada mais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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