Partícula viaja mais rápido que a luz

Grupo internacional de cientistas do Cern anuncia descoberta, que, se comprovada, comprometerá teoria da relatividade, de Einstein

GENEBRA, Reuters/O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h04

 

Um grupo internacional de cientistas anunciou ontem que partículas fundamentais, conhecidas como neutrinos, são capazes de viajar a uma velocidade mais rápida que a da luz. Outros pesquisadores encararam com cautela a descoberta. No entanto, se o achado for comprovado, uma das regras mais fundamentais da física moderna cairá por terra: a convicção de que nada viaja mais rápido que 299.792.458 metros por segundo.

 

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Antonio Ereditato, porta-voz dos cientistas, disse que medições recolhidas nos últimos três anos mostraram que um feixe de neutrinos produzido na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês), próximo a Genebra, percorreu 732 quilômetros no subsolo e atingiu o Laboratório de Gran Sasso, na Itália, 60 nanossegundos mais rápido que a luz (mais informações nesta página).

"Nós temos grande confiança nos resultados. Checamos e rechecamos todas as possíveis fontes de erros e não encontramos nada", afirmou Ereditato. "Queremos agora que outros cientistas verifiquem tudo de forma independente." Se confirmada, a descoberta comprometerá a teoria da relatividade especial, formulada por Albert Einstein em 1905, que diz que a velocidade da luz é uma constante cósmica e nada no universo poderia viajar mais rápido.

A descoberta, totalmente inesperada segundo os cientistas, surgiu no contexto do Projeto Opera, uma iniciativa conjunta do Cern e do laboratório italiano. Cerca de 15 mil feixes de neutrinos - partículas subatômicas que vagam pelo universo e não costumam interagir com a matéria - foram produzidos durante três anos no Cern e enviadas para o Gran Sasso, onde eram capturadas por detectores gigantes.

A luz teria percorrido a mesma distância - de 732 quilômetros - em 2,4 milésimos de segundo. Os neutrinos levaram um tempo 60 bilionésimos de segundo menor. "É uma diferença minúscula", afirmou Ereditato, que também leciona na Universidade Berna, na Suíça. "Mas conceitualmente é incrivelmente importante."

O pesquisador, no entanto, não quis comentar o que acontecerá se outros cientistas confirmarem os resultados. "O achado é tão impressionante que, por enquanto, todos devemos ser prudentes", disse. "Nem quero pensar nas implicações."

Confirmação. Um resultado semelhante havia sido obtido em 2007, nos Estados Unidos. Cientistas detectaram neutrinos enviados do Fermilab, em Illinois, chegando aos detectores do Projeto Minos, em Minnesota, antes do tempo previsto. Mas como o experimento não possuía controles muito confiáveis, a descoberta foi encarada com ceticismo. Agora, com o anúncio do achado europeu, os americanos querem repetir o experimento com mais cuidado.

A existência dos neutrinos, um elemento subatômico com massa muito pequena e produzido no decaimento radioativo ou em reações nucleares foi confirmada em 1934. Contudo, ainda intriga os cientistas. Em um único dia, milhões de neutrinos produzidos pelo Sol atravessam o corpo humano.

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