Partidos e oligarquias

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2015 | 13h36

A pesquisa Ibope publicada recentemente pelo Estadão trouxe uma informação importante: o alto grau de rejeição dos nomes de Lula, Aécio, Marina, Serra, Alckmin e Ciro, que no momento são tidos como presidenciáveis para 2018, em números bem superiores ao que seria a intenção de votos de cada um deles. Aécio tem a menor rejeição (47%) e Lula a maior (55%). 

Entretanto, outra informação implícita merece ser analisada: todos já figuraram como candidatos a presidente pelo menos uma vez, sendo que Lula, além de quatro candidaturas entre 1989 e 2002, exerceu mandato presidencial por oito anos. O que essa informação traz de importante? Confirma o fato de os partidos estarem oligarquizados, não renovarem suas lideranças e sempre disponibilizarem, salvo raras exceções, as mesmas alternativas de nomes em quaisquer que sejam os processos eleitorais. A questão que se coloca aqui é a seguinte: será que os altos índices de rejeição não seriam explicados também por uma suposta fadiga social em relação aos nomes existentes, em vez de apenas pela baixa credibilidade da classe política? 

Por exemplo, quando chegar ao fim o atual mandato de Geraldo Alckmin (dezembro de 2018), o PSDB vai completar 24 anos consecutivos à frente do governo do Estado de São Paulo (desde janeiro de 1995). Desses, 14 anos foram com o próprio Alckmin, 3,5 com José Serra e o restante de Mário Covas. Observa-se que apenas três líderes tucanos governaram São Paulo num longo período de 24 anos. Cabe registrar que em março de 2006, quando Geraldo Alckmin deixa o governo para se candidatar à Presidência da República, Cláudio Lembo, naquele momento no PFL (hoje DEM) assumiu o posto e depois desapareceu do cenário político-eleitoral. Do mesmo modo, em abril de 2010, quando o então governador José Serra abreviou seu mandato para se candidatar ao Palácio do Planalto, seu vice, Alberto Goldman, assumiu o restante do período de governo, mas também não conseguiu se colocar como liderança política aos olhos dos eleitores. No âmbito nacional, vale lembrar que Aécio Neves só conseguiu viabilizar sua candidatura ao Planalto em 2014 depois de aguardar na fila e ganhar o beneplácito de FHC. Como ele (Aécio) não detém mais a máquina governamental em MG e sua liderança divide os próprios tucanos, suas expectativas em 2018 podem se voltar ao governo de MG. Fica a pergunta: por quais razões outros nomes do PSDB não ganharam espaço como liderança nacional nesse período? Talvez o controle da máquina partidária nas mãos de poucos responda, ao menos parcialmente, essa indagação. O mesmo comportamento também pode ser observado no que se refere às eleições para prefeito de São Paulo. Desde 1996, os tucanos só têm lançado José Serra (1996, 2004 e 2012) e Geraldo Alckmin (2000 e 2008) como candidatos a prefeito da capital paulista. 

No PT, essa questão também parecia se repetir com a ascensão de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo em 2000. Em 2004 ela se candidatou à reeleição e novamente concorreu a prefeitura em 2008. Porém, após duas derrotas consecutivas, foi impedida por Lula de se recandidatar em 2012 quando o líder petista acabou impondo o nome de Fernando Haddad como candidato do partido e inviabilizando uma prévia que contaria com a ex-prefeita e outros pré-candidatos. Não foi por acaso ou simplesmente por uma repentina mudança de postura acerca do governo Dilma e do PT que Marta Suplicy acabou migrando para o PMDB. A razão objetiva é ter legenda para concorrer ao cargo de prefeita em 2016. 

Mesmo em casos em que se identifica a quebra na sequência de nomes, como em relação a Fernando Haddad e também com o possível nome de Andrea Matarazzo do PSDB para 2016, isso não tem ocorrido por meio do debate partidário, mas sim pela imposição de um grupo restrito de dirigentes a revelia de outras alternativas internas aos próprios partidos. Vale lembrar que o próprio PT, que antes valorizava a participação de seus filiados em prévias para definição de nomes a cargos para o Executivo, vem abandonando tal prática. Por exemplo, para a definição do candidato do partido às eleições à Prefeitura de São Paulo em 1989 e 1996, Luiza Erundina, ainda filiada à legenda, derrotou os nomes apoiados pelo núcleo dirigente do partido: Plínio de Arruda Sampaio e Aloizio Mercadante, respectivamente. Ao que parece, os dirigentes temem perder o controle sobre os partidos.

Fica a sensação que partidos parecem ter donos ou nomes cativos para determinados cargos. Como visto, isso vale tanto para o PT como para o PSDB. Basta olhar para o cenário que se desenha para 2018 e verificar que aos petistas a alternativa (ao que parece consensual) ainda é Lula (lembrando que o nome de Dilma foi uma imposição dele em 2010) e para os tucanos os nomes de sempre: Serra, Aécio ou Alckmin. O mesmo se pode afirmar em relação à Marina, que vai para sua terceira candidatura consecutiva, e também com relação a Ciro Gomes, que tenta pela segunda vez retornar à cena política disputando uma eleição presidencial agora pelo PDT.

Em tempos de crise política aguda e de desconfiança generalizada da sociedade sobre as boas intenções dos nomes que estão circulando, renovar práticas partidárias e abrir espaços para novas lideranças talvez seja um bom caminho. Entretanto, como a escolha eleitoral é posterior à definição dos nomes pelos partidos, sendo que estes que detêm o monopólio da competição política, a tendência é que em 2018 tenhamos que escolher dentre os mesmos de sempre.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP


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