''Passei minha infância sofrendo maus tratos''

Depoimento - Milton Jorge, fiscal de farmácia

, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2011 | 00h00

"Minha história começou no dia 4 de dezembro de 1957. Até eu completar 8 anos de idade, o tempo passou sem eu ter noção de que existia um mundo fora das paredes do educandário.

Comecei a frequentar a escola e percebi que os pais dos alunos iam buscá-los. Passei a me perguntar por que eu era diferente.

Perguntei sobre minha mãe para a irmã responsável pelo abrigo. A resposta dela foi cruel. "Você está aqui porque sua mãe é uma vagabunda."

Foi um choque. Certa vez, quando tinha uns 11 anos, tive o direito de ir visitar minha mãe. Eram encontros que o educandário organizava algumas vezes por ano.

Contei para minha mãe o que a freira havia dito. Chorando, ela me abraçou, disse que tinha uma doença e, por isso, não poderia cuidar de mim.

Vida cruel. A vida no educandário continuou cruel. Quando a gente fazia xixi na cama, por exemplo, éramos obrigados a ir até o pátio e carregar o colchão nas costas até secar. Como castigo, não podíamos tomar banho.

Havia um monitor muito severo, o Edmilson, que sempre batia nas crianças. Quantos cabos de vassoura foram quebrados nos pés e nas costas das crianças... Lembro de uma vez que serviram carne moída no almoço. Não suporto carne moída. Fui obrigado a comer. Passei mal, vomitei. Bravo, ele pegou minha cabeça e esfregou no meu vômito.

Em outra situação, ele quebrou um cabo de vassoura no meu punho. Uma outra vez ele me obrigou a sentar em uma cadeira no meio do pátio e mandou uns 50 meninos fazerem fila para bater em minhas mãos com a palmatória. Eu só pensava em fugir daquele lugar.

Foram tantas cenas horrorosas que é impossível apagar da memória. Minha mãe morreu quando eu tinha uns 14 anos. As irmãs não me deixaram vê-la nos seus últimos dias de vida.

Vida nova. Saí do educandário com 16 anos - um padrinho de casamento da minha mãe foi me buscar. Morei com ele por dois meses, depois eu fui viver a minha vida.

Eu me casei, tive quatro filhos lindos. E olha como é o destino... Fui à feira com minha mulher e meus filhos e dei de cara com o Edmilson. Aquele que me torturava no educandário. Lembrei dele na hora, mas ele não se lembrou de mim.

Eu disse a ele: "Eu sou o Milton, aquele menino do educandário que você colocou numa cadeira no meio do pátio para apanhar de palmatória." Ele ficou complemente atordoado, mas não se desculpou. Simplesmente não falou nada.

Minha mulher morreu de pneumonia quando nossa filha mais nova estava com 1 ano e meio. Pensei: "Como vou criar quatro crianças sozinho?" Fui à luta e criei meus filhos juntando papelão e latinha. Hoje o mais velho está casado, a segunda se casa neste mês. Os mais novos ainda vivem comigo. Fui apelidado de Pai Herói."

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