Patriarca da Igreja Ortodoxa Grega vai ao Vaticano

Esta é a primeira vez desde 1054 que a autoridade prestigia missa inaugural de um novo papa; especialistas veem sinais de diálogo

VATICANO, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2013 | 02h04

Francisco é definitivamente um papa afeito aos ineditismos. Primeiro sul-americano, primeiro jesuíta, primeiro a usar sua denominação, ontem o novo pontífice também se tornou o primeiro a receber em sua missa inaugural a visita do patriarca da Igreja Ortodoxa Grega desde o cisma católico, ocorrido no ano 1054. Ao lado de líderes da Igreja da Rússia e da Sérvia, entre outras, a presença do patriarca Bartolomeu I foi interpretada como um sinal de que as confissões católicas do Ocidente e do Oriente podem entrar em fase de maior aproximação no atual pontificado.

A presença da autoridade máxima da Igreja Ortodoxa Grega, Bartolomeu I, havia sido anunciada pelo Vaticano na segunda-feira, véspera da missa inaugural. Trata-se de um evento histórico no catolicismo, pois desde o grande cisma nenhum patriarca grego ortodoxo prestava a homenagem ao líder da Igreja Católica Apostólica Romana em sua missa de inauguração.

A discórdia que levou ao cisma teve como centro a polêmica em torno da forma de governo da Igreja. Os bispos de Roma passaram a exigir uma subordinação dos patriarcados orientais - Alexandria, Antioquia, Constantinopla -, fazendo do papa um monarca absoluto em vez do chefe de um governo colegiado.

Além de Bartolomeu I, estiveram presentes patriarcas e arcebispos maiores das dez Igrejas Orientais Católicas, entre os quais o líder da Igreja Católica Ortodoxa Russa e das Igrejas Ortodoxas da Armênia e da Sérvia, em um total de 33 delegações de denominações cristãs - entre elas 14 orientais e 10 ocidentais, além de organizações cristãs e outros grupos. Desde o conclave, Francisco tem recebido a visita na Praça São Pedro de cristãos coptas, do Egito, maronitas, do Líbano, e até mesmo grupos de sírios.

Uma das explicações do respeito obtido por Francisco é o fato de que, na Argentina, ele também chefiava o Ordinariato Oriental, que presta atividade pastoral a comunidades católicas orientais, como ucranianos, armênios, maronitas, melquitas, russos e romenos. O prestígio do papa ficou claro após o anúncio de seu nome. Bartolomeu I lhe escreveu, cumprimentando-o: "Desejo que prossigamos nossa viagem em direção à reconciliação e à consolidação do diálogo pela unidade de nossa Igreja".

Para especialistas como Lucetta Scaraffia, vaticanista e historiadora da Universidade Roma Sapienza, a aproximação ecumênica se intensificou no pontificado de Bento XVI e, agora, com Francisco, tende a gerar frutos. "A presença de todos confirma que há uma grande atenção e esperança em relação ao novo papa nas igrejas orientais", disse Lucetta ao Estado. "O trabalho foi iniciado por Bento XVI, mas os líderes têm demonstrado muita abertura em relação a Francisco, que tem uma grande capacidade de comunicação."

Segundo a historiadora, o papa saberá acentuar os pontos de acordo entre as igrejas católicas e as diferentes religiões, evitando os grandes focos de atrito. "Francisco já deixou claro que será um pastor. Com esse discurso, ele poderá até mesmo implementar uma série de ideias que Bento XVI já desenvolvia, mas que ficaram inacabadas."

Em artigo publicado pela imprensa romana, o filósofo italiano Vittorio Strada seguiu a mesma linha. "A julgar pelo primeiro ato e pela personalidade deste papa, tudo parece conduzir a uma retomada e a uma melhora das relações com o Oriente."

Gestos. A viagem do patriarca do Oriente pode ser explicada não como uma submissão a Roma, mas pelo fato de as igrejas orientais terem percebido nos gestos de Francisco uma promessa de mudança na forma de governo da Igreja. Entre os gestos estão o fato de o papa se apresentar como "bispo de Roma, de uma Igreja que preside pela caridade".

Ele usou as palavras de Inácio de Antioquia, um dos padres da Igreja que viveu no século 2.º. "É uma nova forma de exercer o primado de Roma. Ele sinaliza que caminha para a consciência ecumênica, favorecendo a caridade e a comunhão das igrejas. Há uma mudança de ênfase do jurídico para o pastoral", afirmou o padre e teólogo jesuíta João Batista Libânio. Para ele, uma maior colegialidade na Igreja não favoreceria só o diálogo com as igrejas orientais, mas também com anglicanos e luteranos.

Além de católicos de todo o mundo, uma numerosa delegação judaica - com 16 representantes da Comunidade Judaica de Roma, dos Comitês Judeus Internacionais, do Grande Rabinato de Israel e do Conselho Judeu Mundial, entre outros -, delegações muçulmanas, budistas, sikh e jainistas prestigiaram o papa Francisco em sua missa inaugural. / ANDREI NETTO, COLABOROU MARCELO GODOY

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