Patriotada em excesso e fracas canções autorais

Pretexto de homenagem à Pequena Notável tem muita produção e maquiagem para pouco conteúdo

LAURO LISBOA GARCIA, O Estadao de S.Paulo

16 de dezembro de 2009 | 00h00

Crítica

Num ano de tantos engodos femininos hypados no mercado brasileiro, pra arrematar a temporada Daniela Mercury ressurge com um dos discos mais fracos de sua carreira, embora se faça estrondoso. Canibália sai com cinco capas e cinco sequências diferentes de faixas. O efeito de maquiagem não se limita ao material gráfico de Gringo Cardia: se o conteúdo é inconsistente, como diz o chavão, investe-se na forma. Por fora, bela viola, mas por dentro...

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Há boas investidas em misturas de gêneros, na produção com bases eletrônicas, nas células rítmicas de influências do candomblé, mas toda essa parafernália não esconde a flacidez da maioria das faixas inéditas autorais e do equívoco de certas reinterpretações. Eu Sou Preta (J.Velloso/Mariene de Castro) não corresponde ao talento dos autores. É um balaio de clichês de exaltação à baianidade, que tem algum ganho na citação de Sorriso Negro (Adilson Barbado/Jair Carvalho/Wallace Jefferson), clássico do repertório de Dona Ivone Lara, aqui na voz de Seu Jorge, que termina em rap.

Na oficina de composição que Jean Garfunkel deu no festival Choro Jazz Jericoacoara, na semana retrasada, ensinou que uma canção para ser popular tem de ter um equilíbrio entre a redundância e informações novas. No reggae Sol do Sul, Daniela cai na repetição, usando justamente palavras citadas pelos compositores amadores no festival e que tantas vezes apareceram juntas em velhas aliterações, rimas e imagens óbvias - céu, Sol, som, Sul - mais olhos de farol, azul do mar...

Além desta, a face "latino-América" vem na versão de La Vida Es Un Carnaval, sucesso do repertório de Celia Cruz. Dona Desse Lugar recai sobre o universo indígena. Cinco Meninos junta as vozes da família. É muito ecletismo para uma aquarela só. A Sony, que por sorte acertou o chute juntando Vanessa da Mata e Ben Harper, botou o incauto John Legend no vomitório de Ana Carolina e agora faz vítima Wyclef Jean, em dueto e "parceria" com Daniela em This Life Is Beautiful, mais uma exaltação ao país tropical. Sabe vergonha alheia? É o que dá de ouvir isso.

No mais é Dorival Caymmi, Ary Barroso, Tropicália, Glauber Rocha, tribalismo, etc. num amontoado de referências e citações com intenções claras, mas de resultado duvidoso. É tanta patriotada - com urras de "Brasil", "viva Carmen Miranda" e expressões do gênero - que parece um CD produzido pelo Galvão Bueno. O pretexto dessa "canibália" é o centenário de nascimento de Carmen, mas Ná Ozzetti fez melhor com seu Balangandãs, moderno e (ir)reverente em doses precisas - música para ouvir e se deliciar com soluções inteligentes, enquanto a baiana faz carnaval para pés pularem, com abacaxi na cabeça e vocabulário pobre.

No aspecto festivo, Daniela acerta na versão sacudida de O Que É Que a Baiana Tem? (Dorival Caymmi), que vai bem até ela dar um viva a la Miranda no final. Desnecessário. Já na equivocada versão eletrônica de Tico-Tico no Fubá (Zequinha de Abreu/Aloysio de Oliveira) - também citada na mistureba de Trio em Transe -, ela não dá conta da velocidade do choro. Parece o Marcos Palmeira, no quesito engolidor de sílabas.

Como a insinuar preocupação, além do escapismo do carnaval dessa gente feliz e morena, eis que há lapsos de "consciência" como no revival de O Que Será? (À Flor da Terra) (Chico Buarque) - que Daniela já tinha gravado com Mercedes Sosa -, agora em versão axé cabeça. Como a lembrar que a velha cara política do Brasil, hoje como ontem, "não tem decência, nem nunca terá", só reforça, antagônico, o abestalhado ufanismo do resto do disco. É como investir em cinco capas diferentes, nesses tempos em que pouquíssimos ainda compram CDs: otimismo excessivo, fora da realidade. Mas o pior de Daniela ainda é melhor do que o "melhor" de suas gritantes clones de silicone e cabeça oca.

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