Pau Brasil, a repressão da sexualidade nos grotões

Filme é adaptado da obra homônima de Dinorath do Valle pelo cineasta Fernando Belens; outro programa é o instigante documentário O Abraço Corporativo

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

03 Novembro 2009 | 00h00

Pau Brasil é um filme de exceção na cinematografia brasileira. Adaptado do livro homônimo da escritora Dinorath do Valle, e dirigido pelo cineasta baiano Fernando Belens, sai do espaço urbano e busca registrar um modo de vida ainda enraizado nos grotões do País.

A história põe em cena duas famílias do vilarejo chamado Pau Brasil. Joaquim (Oswaldo Mil) é um mascate que cria as filhas com rédea curta, rigor que não encobre o seu contrário, um certo assédio, tolerado pela esposa. A outra família é a de Nives (Bertrand Duarte), casado com Juraci (Fernanda Paquelet), mulher de sexualidade livre e que desperta o falatório. Nives e Juraci são brancos e têm um filho negro, o que não contribui para a reputação da mulher.

Intenso e trabalhado visualmente, o filme mergulha nas paixões humanas que se amplificam e se tornam mais explícitas em localidade pequena. A intolerância sexual imposta por Joaquim não esconde sua origem em desejos reprimidos. E a atitude libertária de Juraci incomoda a população, inclusive a sua parte feminina, exatamente porque mostra o que todos têm vontade de fazer mas não se permitem. Esse meio expressa a dialética entre o desejo e a possibilidade de sua realização - terreno no qual Belens se mexe à vontade, já que é psiquiatra de formação. Com olhar clínico, não deixa de notar que essa repressão sequer precisa de uma autoridade externa para funcionar já que está internalizada em cada um. Godard já falava que temos um "flic dans la tête" - um policial interior que dá conta do recado, garantindo a manutenção da "ordem e dos bons costumes".

O filme vai mal em outros aspectos, por exemplo na irregularidade do elenco e na presença de personagens dispensáveis como a da mendiga profeta que funciona como coro grego da ação. Mas esses são vacilos da ambição artística (querer dizer tudo na mesma obra) e não tiram o interesse de Pau Brasil.

MÍDIA NA BERLINDA

O Abraço Corporativo é um interessante documentário dirigido por Ricardo Kauffman. Começa por nos apresentar um desses candidatos a guru do meio corporativo, que se diz representante de uma entidade britânica. Sua tese é que a frieza nas relações dentro da empresa teriam consequências na produtividade. E um antídoto possível seria o uso de um recurso humano esquecido - o abraço. Se as pessoas demonstrassem mais afeto, tudo iria melhor. Com essas ideias, o especialista consegue espaço em jornais, rádio e TV. Vira notícia. Até que a farsa se revela. O profeta do abraço não passa de um ator interpretando o papel de especialista em recursos humanos.

O filme dá o que pensar. Mostra a fragilidade da mídia diante de factoides e notícias plantadas. E revela como as próprias empresas parecem suscetíveis à ação de picaretas de todas as espécies. A nossa época já foi chamada de "a era do conhecimento". Seria talvez melhor defini-la como a era da burrice generalizada.

Serviço

Pau Brasil (Brasil-Alemanha, 98 min.) HSBC Belas Artes 2 - Hoje, 17h10

O Abraço Corporativo (Brasil, 75 min.) Arteplex 2 - Hoje, 15h20

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