Wilton Junior/AE
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Paul McCartney abre show no Rio com 'Magical Mystery Tour'

Animação era grande e o som estava melhor do que no início da primeira noite

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo ,

23 de maio de 2011 | 22h03

RIO - Diferentemente do domingo, Paul McCartney entrou pontualmente às 21h30 no palco do Engenhão, ontem, no Rio, vestindo terno preto, como toda a banda, e abriu o show não com Hello, Goodbye, mas com Magical Mystery Tour. Esta não foi a única mudança no roteiro. O ex-Beatle também incluiu Comin' Up e Got to Get You Into My Life, tirou do repertório Drive My Car e contou que compôs Blackbird para confortar os americanos que sofreram com a Guerra Civil nos anos 1960. No fim do primeiro bis, também substituiu Get Back por I Saw Her Standing There.

 

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Com praticamente o mesmo público de 45 mil da primeira noite (até a tarde de ontem restavam cerca de 500 ingressos para as cadeiras superiores à venda), e apesar dos inconvenientes reflexos de um dia comum de trabalho, a animação era grande tanto de Paul como dos fãs (até maior que a da noite anterior em vários momentos) e o som estava incomparavelmente melhor do que na primeira noite desde o início.

 

Revisitando diversas fases da carreira na turnê Up and Coming, o set list de Paul, com mais de 30 canções, privilegia o repertório de sua banda maior. Além das clássicas parcerias com John Lennon, ele também faz outras referências a ele, crescentando o refrão de Give Peace a Chance no final de A Day in the Life (o que diminui o impacto de uma das bandas sensacionais canções da dupla e seu arranjo antológico) e dedicando ao amigo outra canção, Here Today.

Alguns hits mais poderosos do Wings, como Jet, Band on the Run, Live and Let Die e a cafona Mrs. Vanderbilt surtem grande efeito na multidão, mas são os clássicos dos Fab Four, em maior quantidade no roteiro, que mexem mais fundo com o lado sentimental do público. Baladas como Yesterday, Let It Be, And I Love Her, The Long and Winding Road e Something fazem verter lágrimas dos olhos dos fãs, que cantam todas com Paul, como já é hábito. As gargantas se rasgam e os pés saltam em rocks irresistíveis como All My Loving, Helter Skelter, Back in the U.S.S.R., Day Tripper, I Saw Her Standing There.

 

Até uma faxineira na imensa área Premium (que tomava praticamente metade do gramado) cantarolava Yesterday, mas reclamou no fim: "Ah, ele não cantou a que eu queria". Qual?: "Ah, não sei o nome, é uma bonita antiiiiiga". Como se as outras não fossem e se mais de duas horas e meia de som não tivessem sido suficientes. Paul estava animadíssimo nas duas noites, mas muito mais na de segunda, e não parava de exaltar o Rio. Antes de cantar Lady Madonna, no primeiro bis, improvisou cantarolando versos de agradecimento ao público carioca e ao Brasil por terem se divertido muito por aqui.

 

Quatro garotas - Laura, Carolina, Júlia e Mariana - subiram ao palco no final e ganharam beijos e autógrafos do ídolo em meio a gritos e lágrimas. Os seguranças passaram momentos de tensão tentando retirar um adolescente mais exaltado que subiu na estrutura que sustentava parte das caixas de som no meio do gramado. Na tentativa de subir cada vez mais alto e driblar os seguranças o rapaz escorregou, tirou a camisa e a agitou gritando para Paul. Tomou uma vaia do pessoal das cadeiras e acabou saindo ileso.

 

Para quem viu os shows da turnê em São Paulo, Porto Alegre (seis meses atrás) ou mesmo anteontem no Rio, não houve muitas surpresas além da ligeira mudança do roteiro no início. Mesmo assim, é impressionante ver a devoção dos fãs (muitos dos quais, jovens, que o viam pela primeira vez ao vivo), o carisma e a disposição de Paul no palco.

 

Aos quase 69 anos (que completa no dia 12 de junho), montado numa fortuna incalculável, com essa fama, esse poder e tudo o que não se precisa mais dizer que ele representa na história da música pop, poderia não se importar com nada que exigisse esforço, como comentou um colega. Mas está aí suando a camisa, e é admirável como ainda se predispõe a dar aos fãs o que eles esperam, cantando velhos hits pela enésima vez, sem que isso pareça um fardo, e pernamecendo com esse gás todo durante tanto tempo em cena. Pouco importa que ele não alcance as notas mais altas de The Long and Winding Road, ele ainda guarda fôlego para arrasar no melhor número do show, Helter Skelter.

 

Paul gosta mesmo é de agradar e na segunda noite da volta ao Rio, depois de 21 anos, não poupou simpatia. E os fãs, em reverência quase religiosa, correspondem com maior entusiasmo. Mais do que no domingo, na segunda ele falou várias frases ensaiadas em português, soltou uivos e latidos, comoveu e divertiu seu fã-clube com um repertório montado de forma estratégica, abrindo e fechando o show com canções de retumbante impacto e deixando uma ou outra menos expressiva no meio.

 

A arrastada balada My Love foi cortada aqui (como no Chile e no Peru), o que é um ganho para o show. Outra mudança que fez grande diferença no Rio foi a distribuição de folhas de papel com a expressão "na" escrita em preto para que o público levantasse na parte final de Hey Jude. O efeito foi muito bonito no domingo. Na segunda havia poucos, provavelmente os fãs que vieram pela segunda vez. Paul ainda deu um último autógrafo a um admirador em meio a uma desnecessária chuva de papel picado nas cores verde, azul e amarelo. Já bastavam os efeitos pirotécnicos da apoteótica Live and Let Die.

 

O Estádio Olímpico João Havelange é bonito e relativamente pequeno, o que deu ao show um ar mais "intimista", se é que se pode dizer. Ficou melhor para ver até os imensos telões laterais - que mostravam Paul na maior parte do tempo, alternando com detalhes e solos dos músicos de sua banda - e o do fundo do palco, que projetava vídeos. Porém, por conta de sua estrutura vazada na parte superior, o estádio parece não ter acústica adequada para shows, mas passou no teste (o de Paul foi o primeiro).

 

Chegar lá no Engenhão também é uma pequena aventura, dizem os cariocas, mas nada comparado ao caos que ronda o Morumbi em noites de show e compromete o trânsito de toda São Paulo. Na Zona Sul do Rio, os taxistas que faziam pontos nos hotéis, prevendo engarrafamento, desencorajavam os usuários a ir de carro e recomendavam a viagem de trem. Foi uma boa opção. Por R$ 2,80, o expresso fazia o percurso da estação Central do Brasil até Engenho de Dentro em 15 minutos, com segurança e conforto. Em ambas as estações e na chegada ao estádio, vários prestadores de serviço contratados pela Planmusic, produtora que trouxe Paul ao Brasil, orientavam o público. Enfim, foi bem organizado e com resultado geral melhor do que os shows de São Paulo em novembro.

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