Becky Aikman/Divulgação
Becky Aikman/Divulgação

Pé na estrada ? e na cozinha

A alma de roqueiro de Bob Spitz não se contentou com a fama depois de ele lançar o livro sobre os Beatles. Bob foi à Europa aprender a cozinhar para se livrar da crise de meia-idade. Voltou de lá com Aprendiz de Cozinheiro

Cíntia Bertolino, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2010 | 01h48

O americano Bob Spitz queria ser um rockstar. E quase conseguiu. Tocou guitarra com Bruce Springsteen e rodou os Estados Unidos no início da década de 70. Cansado de estrada, virou empresário até encarar uma nova reviravolta: ser escritor.

Seu último best-seller, The Beatles - A Biografia (Larousse do Brasil, 2007), é um daqueles calhamaços de fôlego: entre pesquisa e escrita, consumiu quase uma década de trabalho.

Quando tudo parecia no lugar, uma crise de meia-idade fez Spitz tomar um avião rumo à França, com escala na Itália. Foi aprender a cozinhar.

Sobreviveu ao rigor francês, à comilança italiana e, de volta para os Estados Unidos, transformou a aventura em Aprendiz de Cozinheiro (Jorge Zahar Editora, R$ 39). No livro, Spitz conta que, após um divórcio conturbado e uma namorada implicante, tudo o queria era aprender a cozinhar. "Antes de escrever esse livro, meus jantares eram traumáticos. Ia para o fogão às 10 da manhã. Às 8 da noite, quando meus amigos chegavam, a cozinha estava uma bagunça, e eu, tenso. Não sei como sobrevivemos todos àqueles jantares de sexta-feira", diz, rindo.

A viagem começa no sudoeste francês, onde aprende a fazer um caldo de galinha decente e peras cozidas ao vinho do Porto. Essas e outras receitas estão no livro. No fim das aulas exaustivas, a recompensa é uma mesa farta. "A experiência mudou minha vida. Ensinou-me a ter prazer enquanto cozinho", disse ele em entrevista ao Paladar, por telefone, de Connecticut.

Spitz também contou, em primeira mão, que está escrevendo a biografia de Julia Child. Confira, na entrevista a seguir.

Como foi escrever um livro pessoal após The Beatles ?

Foi muito difícil. A biografia dos Beatles consumiu nove anos da minha vida, mas o único ano que levei para escrever Aprendiz de Cozinheiro me pareceu mais longo que aqueles nove.

Por quê?

Estava numa fase complicada e tive que botar isso tudo no papel. Não é nada fácil escrever sobre si mesmo, especialmente quando é preciso ser brutalmente honesto sobre o que anda acontecendo em sua vida.

Isso incluía suas habilidades na cozinha?

Com certeza. No início do livro, minha comida era horrível. No fim do livro, ficou um pouco melhor (risos).

Qual foi a coisa mais importante que você aprendeu na França?

Mais que tudo, aprendi a ter disciplina e respeito. Cozinhava com paixão, mas sem o menor traço de rigor. Aprendi que é preciso saber o que se está fazendo, ter respeito pelos ingredientes. Foi importante fazer essa descoberta no início da jornada. Os franceses me tornaram um cozinheiro mais humilde.

E na Itália?

Na Itália aprendi algo completamente diferente: aprendi a relaxar. Eles cozinham com a mesma disciplina dos franceses, mas de uma maneira muito mais relaxada. Não detectei o menor traço da tensão que presenciei nas cozinhas francesas. Tudo que os italianos fazem, fazem com paixão. Os franceses adoram comida, mas quando comem é um ato quase mecânico. Os italianos cozinham e comem com paixão.

O que você gosta de ouvir enquanto cozinha?

Sempre tem música tocando. Deixo meu iPod rolando no modo aleatório e acontece de sair do fogão várias vezes para pegar minha guitarra ou ir até o piano e tocar junto com a música, para então voltar a cozinhar.

Por que deixou a carreira de músico?

Comecei a tocar com Bruce Springsteen em 1971. Fiquei na banda por mais de seis anos e quando se está numa banda de rock por todo esse tempo, você envelhece rápido. No fim dessa temporada, estava exausto.

E a comida na estrada, quando a banda estava em turnê?

É horrível, a pior que existe. Comíamos no McDonald"s o tempo todo. Era o restaurante favorito do Bruce.

Sério?

Sério (risos). Mas tínhamos todos pouco mais de 20 anos. Hoje Bruce tem um ótimo gosto para comida. Eu já gostava de comer. Para mim, aquilo era um horror.

Dá para fazer uma analogia entre a vida de um rockstar e de um chef celebridade?

Essa é uma ideia interessante. Mas chefs trabalham muito mais que roqueiros. Rock"n"roll, por mais duro que seja, é sempre divertido.

Você está escrevendo outro livro?

Sou o biógrafo de Julia Child. Estou no meio do processo de pesquisa de um livro que vai ser publicado em agosto de 2012, centenário de nascimento de Julia. No momento estou mergulhado nos documentos, diários e toda a papelada dela.

Como surgiu esse interesse?

Estava na Europa fazendo uma série de artigos e recebi um telefonema. Alguém me perguntando se me importaria de acompanhar uma senhora por alguns países durante um mês. Respondi ofendido: "Eu não faço esse tipo de coisa." Aí me disseram: "É Julia Child." Eu disse: "Mande ela vir!" Passamos um mês, em 1992, comendo bem.

Qual sua impressão dela?

Julia Child foi uma mulher incrível. Ela não só ensinou aos americanos como comer: ela nos ensinou a viver bem. Não poderia pedir uma personalidade melhor para escrever a respeito.

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