Sou da estrada/Divulgação
Sou da estrada/Divulgação

Pé na estrada, mas com rastro verde

De carro, moto ou bike, é possível compensar as emissões da sua viagem de aventura pelo mundo

Gustavo Bonfiglioli, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

Botar o pé na estrada e sair por aí é um fetiche do viajante ocidental moderno desde a metade do século passado. Muitos jovens quiseram imitar os dois protagonistas de On the Road, do escritor americano Jack Kerouac. Espécie de bíblia do turista aventureiro, o livro conta a história de uma dupla pelas estradas norte-americanas, em uma expedição de costa a costa.

 

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Se o imaginário desse tipo de viagem surgiu a partir de uma íntima relação entre aventura e natureza, as mudanças climáticas mudaram essa percepção. Se fosse feita hoje em um carro de porte médio, apenas uma das viagens realizadas por Kerouac que inspiraram o livro - ida e volta entre Nova York e Los Angeles, em aproximadamente 10,6 mil quilômetros - emitiria cerca de 2,65 toneladas de gás carbônico, apontado como o principal vilão do aquecimento global.

A preocupação com o impacto do carro no percurso inovou as maneiras de botar o pé na estrada e de compensar pela emissão. Plantar árvores, comprar créditos de carbono, apostar no carro elétrico e até se aventurar em longas expedições de bicicleta são algumas soluções dos viajantes ecofriendly.

Muitos procuram o amparo de ONGs e universidades, onde conseguem patrocínio. "Estamos falando de uma tendência recente. Se o viajante quiser plantar árvores na Mata Atlântica para compensar emissões, deve procurar uma ONG com expertise que faça o cálculo e saiba plantar as espécies certas para cada região", diz o educador ambiental Lemuel Santos Rex, da SOS Mata Atlântica.

A ONG faz o plantio de árvores por encomenda para tentar neutralizar a pegada de carbono de atividades urbanas e viagens. "Apesar de não compensar inteiramente as emissões, é uma iniciativa interessante."

Um projeto que vai converter o gás carbônico em árvores é o Sou da Estrada, de Cassiano Freitas, de 28 anos, e André del Gaudio, de 25. Em parceria com o Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza (IBDN), os mochileiros estão calculando diariamente a quilometragem do jipe que usam na viagem entre São Paulo e Patagônia, na Argentina, passando por outras regiões da América do Sul.

"Anotamos o consumo diário de energia elétrica e de água, além da produção e descarte de resíduos, e fazemos coleta seletiva", conta Cassiano. O projeto recebeu R$ 26 mil de empresas parceiras e vai plantar de 100 a 200 árvores na Mata Atlântica.

No Brasil ainda é raro que pessoas físicas comprem créditos de carbono para compensar viagens. Nos EUA, apesar de o mercado também não ser regulamentado, muitas ONGs vendem para pequenos compradores.

"Há métodos distintos de calcular quanto vale o gás carbônico emitido. Pode-se pedir o cálculo da quilometragem de uma viagem ou do uso diário do carro na cidade e pagar o valor correspondente, que deve ser usado para sequestrar da atmosfera uma quantidade equivalente de gás carbônico. É muito importante ser criterioso na escolha da entidade", afirma Patrick Huber, Ph.D. em Geografia e Análises de Terreno da Universidade da Califórnia, nos EUA.

O cientista compra créditos de carbono sempre que viaja de carro com a família. O preço da tonelada nos EUA varia de US$ 2,75 a US$ 29, a depender do cálculo da instituição. Na Europa, a tonelada sai em média por 13 (US$ 17,70).

Road trip elétrica. No fim do ano passado, um grupo de alunos e recém-formados da Imperial College, em Londres, ficou famoso por viajar de Fairbanks, no Alasca, nos EUA, a Ushuaia, na Patagônia argentina, pilotando um SZero - carro elétrico desenvolvido na instituição. A viagem durou 70 dias e eles andaram 26 mil km, maior distância já percorrida por um carro movido a bateria.

Com o patrocínio de 35 empresas, o projeto custou em torno de US$ 750 mil. O engenheiro mecânico Alexander Schey, um dos viajantes, acredita que os carros elétricos híbridos (HEVs), que funcionam com combustível ou bateria, já sejam mais acessíveis em dez anos.

"Quando o preço e a performance das baterias melhorarem e os países tiverem infraestrutura para recarga, os carros exclusivamente elétricos vão dominar o mercado", diz Schey.

O carro elétrico parece uma boa solução para cruzar estradas sem aumentar as emissões, mas a coordenadora da campanha de clima do Greenpeace, Nicole Oliveira, não pensa assim. "Se atrás da tomada do carro elétrico tiver uma usina de carvão, ele está poluindo muito. E no Brasil ainda não temos pontos de carga. Vai viajar com carro elétrico e carregar onde?", pergunta.

Schey confessa que, de fato, o grupo teve de fazer recargas sujas, em termoelétricas, por exemplo, onde há queima de carvão.

De bike. A ideia de não poluir durante o trajeto também agradou André Pasqualini, de 36 anos. Ele vai percorrer ao todo 7 mil km. Pareceria pouco, se fosse de carro, mas ele está sobre duas rodas e sem motor.

"Produzo pouco lixo e acampo ou procuro me hospedar em casas de nativos", diz o ciclista.

Para Nicole Oliveira, do Greenpeace, a atitude é louvável. "É o melhor meio porque não vai poluir nada."

Já para Marco Antônio Fujihara, da empresa de crédito de carbono WayCarbon, viagens do tipo não resolvem o problema das emissões e são pura "autopromoção". "Isso é uma gota no oceano." Apesar disso, ele concorda que o viajante em busca de compensar suas emissões deve procurar orientação especializada, em instituições sérias. "Ele deve estudar o trajeto e planejar essa viagem junto com uma ONG."

FAÇA AS CONTAS

1.000 km

percorridos em um carro de motor 2.0 e porte médio movido a gasolina emitem em média:

249 kg

de gás carbônico na atmosfera. Essa quantidade por mês resulta em:

2,9 t

por ano, que podem ser compensadas por meio do plantio de cerca de:

8 árvores

nativas em florestas, com a orientação de uma ONG

US$ 29

É o preço que a tonelada de carbono pode chegar nos EUA. A variação, porém, é grande - depende do cálculo utilizado pela ONG

 

COLABOROU ANA BIZZOTTO

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