Tiago Queiroz/Estadão
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Luis Fernando Verissimo
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Pega organizado

Com a aproximação da Copa, uma opção para o problema da violência nos estádios e saques na Argentina seria recrutar os valentes dos dois lados e deixá-los brigar

Luis Fernando Verissimo,

28 de dezembro de 2013 | 16h00

Uma coisa em comum entre os brigões na arena de Joinville e os saqueadores na Argentina, como se viu nas imagens que correram o mundo: todos pareciam ter idade para o serviço militar. Uma solução para o problema da violência, não só nos estádios e nos saques a lojas, portanto, seria recrutá-los, armá-los e soltá-los num campo de batalha, para se enfrentarem e queimarem o excesso de energia. Em outras palavras, a solução para o problema da violência, lá e cá, é uma guerra com a Argentina. Com balas de borracha, claro, para limitar o número de baixas e garantir que a guerra durasse muito tempo.

As cenas lamentáveis de Joinville, que são repetidas sem parar na TV para que possamos lamentá-las várias vezes, foram o que aconteceu de pior no futebol brasileiro em 2013. É verdade que alguns jogos chegaram perto, e o ano acabou com outras barbaridades inexplicáveis, como o campeão de um ano só conseguir escapar do rebaixamento no ano seguinte por uma decisão judicial. A queda do Fluminense, do píncaro quase ao porão em apenas 12 meses, simbolizou, de certa maneira, a inconstância do futebol brasileiro. Evidente, acima de tudo, na dança dos técnicos, cujas idas e vindas entre clubes perdedores atrás de salvadores providenciais lembrou um minueto de mancos. Inexplicável, também, foi a ausência de um grande clube paulista entre os quatro primeiros no Brasileirão, o que não acontecia (imagino eu, estou chutando) há muito tempo. Outra prova de inconstância. Se vivesse no Brasil de hoje e gostasse de futebol, Dante passaria pulando do inferno ao paraíso e de volta ao inferno, sem tempo para estágios intermediários no purgatório, e sem entender nada.

Voltando às cenas lamentáveis de Joinville: sempre que via pela TV um jogo do Atlético Paranaense em casa eu ficava impressionado com sua torcida. Era toda de escandinavos. As câmeras raramente focavam alguém que não parecesse um saudável descendente de nórdicos loiros. Em nenhuma outra aglomeração humana no Brasil se veria a mesma quantidade de bochechas rosadas. E de repente descobrimos que a torcida do Atlético Paranaense tem seu lado obscuro, facções beligerantes, organizadas perigosas - como o Vasco ou qualquer outro grande clube brasileiro. Eu é que pensei que tivesse descoberto um público de badminton em meio ao rude universo do futebol. Devo desculpas à torcida do Atlético Paranaense por tê-la interpretado errado.

A proximidade da Copa nos lembra que todas as Copas têm sua história, e a preparação para as Copas também. Num país em que todo o mundo tem opinião sobre futebol, o processo de escolha do técnico, seleção de jogadores e treinamento tem tanta torcida e provoca tanta controvérsia quanto as próprias Copas. Por exemplo: o preâmbulo da Copa de 66. O Brasil tinha vencido em 58, na Suécia, e de novo em 62, no Chile. Os preparativos para a Copa de 66, na Inglaterra, não eram preparativos para apenas mais uma Copa, portanto. Eram preparativos para um tricampeonato mundial. Criou-se um clima de entusiasmo e expectativa tamanho que levou à loucura a CBD, que era como se chamava então a CBF. Um dos desmandos da CBD foi convocar 47 jogadores para seleção de 66. Dava para formar quatro times, e foi o que fez o técnico Vicente Feola. Os times cumpriam roteiros diferentes, fazendo jogos de exibição pelo Brasil inteiro. A desorganização era flagrante. Mas quem precisava de organização, se tínhamos Pelé e Garrincha no time que viajou para a Inglaterra? No fim todos, inclusive Pelé e Garrincha - que nunca mais jogaram juntos -, fracassaram. Foram derrotados tanto pela euforia desmedida da preparação e a loucura da CBD quanto pela Hungria e Portugal, os times que nos liquidaram. Do último jogo do Brasil na Copa de 66, valendo sei mais lá o quê, ficou a imagem de Pelé sendo literalmente caçado em campo pelos portugueses. Eles nunca pediram desculpa.

De 66 para cá, as preparações para as Copas têm sido, no mínimo, mais racionais. Houve, é verdade, a confusão com o João Saldanha antes da Copa de 70. Segundo a lenda, Saldanha teria reagido à interferência do então presidente Médici na formação do seu time e se demitido. Se foi assim ou não foi, não sei. Zagalo, que substituiu o Saldanha, também não escalou o Dario, como, dizem, queria o Médici. Poder-se-ia fazer um compêndio dos mitos e das curiosidades que cercaram os preparativos do Brasil para as Copas, desde a suposta letargia do Vicente Feola, que dormiria durante os jogos em 58 enquanto Nílton Santos, Didi e Zito dirigiam o time, até o que teria realmente acontecido com o Ronaldo antes da final contra a França em 98.

O que nos espera em 2014? As convocações, como sempre, têm sido controvertidas. Estamos numa entressafra de bons jogadores, com as exceções conhecidas, ou temos time? E o Felipão? Vai bem? Não vai? Parece haver um consenso de que ele não é um estrategista, mas é um empolgador, e que tem biografia e estrela. Vamos ver. De qualquer maneira, recomenda-se a quem acredita que o time brasileiro será vitorioso na copa de 14 que não veja muito o atual futebol europeu na TV. Pode provocar pessimismo.

LUIS FERNANDO VERISSIMO É ESCRITOR, CRONISTA E COLUNISTA DO ESTADO. AUTOR, ENTRE OUTROS, DE COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA (L&PM) E BANQUETE COM OS DEUSES (OBJETIVA)

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