Pegou um ‘azul’ por aqui ou é só história de pescador?

Tânia Nogueira,

15 de abril de 2010 | 11h17

Azul. De vez em quando, ainda se pesca um bluefin no litoral brasileiro. Felipe Rau/AE

 

Nos anos 60 e 70, os pescadores encontravam, com facilidade, cardumes de bluefin no Brasil. "Antes tinha muito", diz Jiro Yamada, proprietário da Jau Pescados, que há 50 anos trabalha no mercado de peixe da Ceagesp. "Há 40 anos, todo dia, apareciam aqui quatro ou cinco deles pesando uns 150 ou 250 kg. Naquela época, ninguém comia sushi no Brasil. Só japonês. Havia duas casas de sushi em São Paulo. Eu vendia o bluefin para o pessoal fazer grelhado", lembra.

 

De vez em quando, ainda se pesca um bluefin no litoral brasileiro. Mas a quantidade não é suficiente nem para abastecer o mercado local. "Quando entra um bom, a gente brinca um pouco", diz o chef Tsuyoshi Murakami, do Kinoshita. Nessas ocasiões, Murakami paga três vezes mais pelo atum e vende o sushi pelo triplo do valor normal, ou seja, R$ 45 reais a dupla. Mas diz que o último hon maguro passou pela casa há uns dois anos.

 

Na opinião dele, apesar de mais saboroso que o mebachi e o kihada nacionais, esse bluefin não era comparável ao que se come em Tóquio ou Nova York. "O último bom (bluefin nacional)de que me lembro entrou no mercado há uns dez anos", conta o chef, nascido no Japão e criado no Rio de Janeiro. "Compramos um pedaço de toro (a barriga gorda do atum) para o Kinoshita. Pesava 240 kg. Só não foi para o Japão porque não tinham caixa para acondicioná-lo."

 

Hideki diz que pelos restaurantes da capital paulista que levam seu nome (são três, sendo que um acaba de ser inaugurado), já passaram cerca de 20 peças de bluefin nacional de qualidade, desde 2003. "Quando aparece um bluefin em qualquer lugar do Brasil, os olheiros nos barcos me ligam."

 

No ano passado, os dois bluefins que surgiram na Ceagesp foram vendidos para Hideki. "Passou por aqui um galha-azul de 160 kg, pescado entre Itajaí e o Rio Grande", diz Aislan Takamura, da Pescados Akira. "Também vendemos um bluefin para o Hideki", afirma Jiro Yamada.

 

A verdade é que todos os bons restaurantes japoneses acompanham à distância a pesca do atum. Têm olheiros nos barcos, nos portos, que informam sempre que aparece mercadoria boa, não precisa nem ser o hon maguro. Quando entra um bluefin na Ceagesp a notícia corre, mas poucos chegam a ver o peixe. "Trabalho na Ceagesp desde 1995 e só vi dois galhas-azuis", diz Rodolfo Hasegawa, do frigorífero Pesca Viva. "Um pescado em Cabo Frio e outro, no Rio Grande do Sul. Os dois com mais de cem quilos. No ano passado, soube que o Akira Takamura (pai de Aislan) tinha vendido um para o Hideki e fui lá comer. É bom, mesmo, mais adocicado."

 

Shin Koike, do Aizomê, conta que teve acesso a um bluefin nacional há pouco mais de um ano. "Às vezes entra no inverno, agosto, setembro, vem do Sul. Mas o do Pacífico é melhor", diz. Daí a curiosidade em torno do importado. O bluefin e o southern bluefin são duas espécies ligeiramente diferentes. O bluefin tem duas sub-espécies, uma habita o Atlântico Norte e o Mediterrâneo, e a outra, o Pacífico Norte. Os pescados no Brasil podem pertencer a qualquer uma das duas espécies.

 

Jun Sakamoto conta que já trouxe toro de bluefin na mala, de Nova York e de Tóquio. "Limitei a um sushi por pessoa. Cobrei mais caro que o normal, R$ 30 a unidade. Ainda assim, paguei para os clientes provarem."

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