Peixe-Leão, o predador do Caribe

Ramón de León sabia que era questão de tempo até sua ilha ser atacada. Há anos ele acompanhava a onda de peixes-leões que descia das Bahamas em direção ao sul, invadindo ilha após ilha e deixando um rastro de espécies nativas devoradas. Responsável pela proteção do Parque Nacional Marinho de Bonaire, no sul do Caribe, que concentra alguns dos recifes de coral mais bem preservados da região, ele não perdeu tempo. Seis meses antes do primeiro peixe-leão aparecer por ali, já tinha um plano de manejo e organizava seminários para treinar mergulhadores para repelir o invasor.

, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

"Nunca tinha visto um peixe-leão, mas sabia que ele estava a caminho", relembra León, um oceanógrafo uruguaio que morou dez anos no Brasil.

Não deu outra. Em 26 de outubro de 2009 - muito antes do esperado -, ele capturou o primeiro peixe-leão em águas bonarianas, a 18 metros de profundidade, na praia de NuKove, noroeste da ilha. Um peixinho de apenas 5 centímetros, mas que deixou muita gente grande preocupada. No dia seguinte apareceu mais um, em outra praia. Depois, mais um e mais um, até todos os recifes de Bonaire estarem repletos de peixes-leões.

"Sabemos que não vamos nos livrar deles, mas pelo menos temos de tentar manter a população baixa onde for possível,", sentencia León, um ano e meio após o início da invasão.

Espécie originária dos Oceanos Índico e Pacífico, com pele rajada e grandes nadadeiras peitorais que se abrem na forma de leques, é muito valorizada como peixe ornamental nos Estados Unidos - onde tudo começou. Com base em registros históricos e análises de DNA, pesquisadores acreditam que a invasão foi deflagrada na década de 1980 pela liberação de espécimes criados em aquários no sul da Flórida, provavelmente depois que os peixes ficaram grandes demais para seus tanques.

O primeiro registro é de 1985. Na virada do milênio, seguindo o fluxo das correntes para o norte, o peixe-leão invadiu quase toda a Costa Leste dos EUA e chegou ao Arquipélago das Bermudas, a mais de mil quilômetros do continente. Em 2004, cruzou a Corrente do Golfo e foi bater nas Bahamas, de onde se espalhou pelo resto do Caribe, Golfo do México e América Central.

"É a primeira vez que vemos um peixe invadir o Atlântico dessa maneira", assombra-se o ecólogo Jim Morris, especialista em espécies invasoras da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), nos EUA. "Temos de pensar no peixe-leão como uma poluição biológica. É como um vazamento de óleo que se reproduz continuamente."

Sem predadores naturais, a espécie se multiplica com rapidez assustadora. A cada quatro dias, as fêmeas liberam dois sacos gelatinosos de óvulos, fertilizados pelos machos. Cada saco tem, em média, 12,5 mil óvulos, o que resulta em 2 milhões de óvulos liberados por ano na natureza por peixe-leão. Em menos de um ano, os filhotes atingem maturidade reprodutiva. E o ciclo recomeça.

Em seu hábitat, no Indo-Pacífico, o peixe-leão é relativamente incomum, com abundância recorde registrada de 80 indivíduos por hectare. Em algumas regiões invadidas do Caribe, há registros que passam de 450 indivíduos por hectare.

Sua alimentação consiste de qualquer outro peixe ou crustáceo que caiba em sua boca - incluindo filhotes de peixes bem maiores que ele. As espécies nativas são presa fácil, já que nunca viram um peixe-leão em sua história evolutiva e não o reconhecem como ameaça. Ao mesmo tempo, predadores maiores, como tubarões, moreias e garoupas, que poderiam devorá-lo, ignoram-no. Talvez, por questões evolutivas. Ou pelos 18 espinhos cheios de veneno espalhados pelo corpo. Em resumo: o peixe-leão come de tudo, mas nada o come.

"Infelizmente para nós, o peixe-leão tem todas as características que você não deseja numa espécie invasora", resume Mark Hixon, especialista em ecologia marinha da Oregon State University, que estuda o problema desde 2007.

Os impactos imediatos da invasão são difíceis de serem mensurados, pois leva tempo para que alterações ecológicas se façam sentir no ecossistema como um todo de maneira expressiva. A longo prazo, pesquisadores alertam para efeitos potencialmente desastrosos, com reduções drásticas na abundância e na diversidade de espécies nativas.

Um estudo coordenado por Hixon nas Bahamas em 2008 indica que um único peixe-leão pode reduzir em quase 80% o "recrutamento" de espécies nativas em um recife de coral. Significa que ele devora 80% das larvas, filhotes e peixes menores que viveriam naquele recife se ele não estivesse por lá. Com milhões de peixes-leões espalhados pelo Caribe e se multiplicando, dá para imaginar o estrago que isso vai causar.

Até para o homem o peixe-leão é uma presa difícil. Ele não forma cardumes, movimenta-se pouco e gosta de ficar bem próximo aos recifes, tornando impraticável a pesca com linhas ou redes em grandes quantidades. "A única solução é matar um por um, mergulhando com arpão", resume León - que, ironicamente, compartilha o sobrenome de seu inimigo marinho, em espanhol.

No fim de 2010, após quase quatro décadas de proibição da pesca submarina em Bonaire, uma exceção foi aberta para permitir a caça de espécies invasoras. Mais de 200 mergulhadores residentes da ilha estão autorizados a matar todos os peixes-leões que encontrarem. A única restrição é que o arpão precisa ser de um modelo fornecido pelo parque, chamado ELF (Eliminate Lionfish), que é de curto alcance e, por isso, não serve para matar outros peixes.

"Felizmente, a natureza tirou um pouco da inteligência do peixe-leão", diz o biólogo Jerry Ligon, instrutor de mergulho em Bonaire há 17 anos. Outras espécies fogem quando um mergulhador se aproxima, mas o peixe-leão parece não se intimidar - o que permite aos mergulhadores chegar bem perto e matá-lo com relativa facilidade. "É um peixe extremamente arrogante", resume Ligon.

De volta a NuKove. Um ano e meio após a captura do primeiro peixe-leão em Bonaire, o Estado voltou com León à praia de NuKove para verificar a situação. Em um mergulho de 50 minutos, avistamos 13 peixes-leões, de variados tamanhos, em diferentes profundidades. León matou dez com um ELF. "Treze peixes, depois de um ano e meio, até que não é muito", avalia. "Outros lugares do Caribe estão muito pior."

Levamos os peixes para o centro de pesquisas Ciee, na capital da ilha, onde pesquisadores mantêm um "banco" com mais de 1,5 mil peixes-leões preservados em álcool ou congelados. Cada animal recebido é medido, pesado, e tem o estômago removido para análise.

O peixe "número um", capturado por León em 2009, está lá, ao lado de outros peixes-leões bem maiores. "Foi espantoso ver a curva de crescimento da primeira geração", relembra a diretora do laboratório, Rita Peachey. "No início eram todos pequenos. Aí foram ficando maiores e maiores, até que começaram a se reproduzir e agora temos peixes de todos os tamanhos por todos os lados."

Assim como León, ela não tem esperanças de erradicar o peixe-leão. E teme pelo futuro dos recifes de Bonaire. "Mesmo se mantivermos nossa população local em níveis baixos, sempre haverá mais larvas chegando de outras ilhas."

Caçar o peixe-leão virou uma febre na ilha. Moradores e guias mergulham quase diariamente para isso e operadoras de turismo oferecem mergulhos guiados do tipo safári, especificamente para caçar peixes-leões.

Se isso está tendo um impacto na reprodução do peixe-leão, é prematuro dizer. A impressão geral é que sim. Nos recifes mergulhados com mais frequência, onde o esforço de caça é maior, a abundância de peixes-leões é menor que nos recifes mais afastados. Mas nunca chega a zero. Para cada peixe-leão morto, sempre parece haver outro pronto para substituí-lo.

Os caçadores, infelizmente, nunca voltam de mãos vazias.

"Quanto mais eu pesquiso, mais me impressiono com a biologia deste peixe", reconhece Morris, da Noaa. "É, realmente, o invasor perfeito."

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