Pela 1ª vez, Brasil faz teste clínico para câncer sem participação da indústria

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) realizou o primeiro teste clínico oncológico de fase 3 sem a coordenação da indústria. Participaram do estudo mais oito centros de pesquisa. Os autores consideram o trabalho um marco na avaliação independente de terapias para câncer no País.

ALEXANDRE GONÇALVES, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2012 | 03h03

Os cientistas queriam descobrir se a administração de dois medicamentos (pemetrexed e carboplatina) poderia aumentar a expectativa de vida de pacientes com uma forma de câncer de pulmão avançado. "Hoje, a maioria das pessoas que chegam nessas condições não recebe terapia, pois o benefício ainda não foi comprovado", diz Carlos Gil, chefe da Pesquisa Clínica e Incorporação Tecnológica do Inca.

O trabalho, divulgado no último congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, mostrou que o remédio aumenta a expectativa de vida em três meses. "Agora precisamos ver se ele é custo-efetivo (se é possível incluí-lo no rol de terapias aprovadas para o SUS)", aponta Gil.

Mais importante que o resultado clínico é o pioneirismo da iniciativa, apontam os pesquisadores. Na conclusão do estudo, eles dizem que o "teste demonstra a viabilidade de um mecanismo independente para conduzir testes de câncer e representa uma mudança de paradigma em pesquisa clínica na América Latina".

Segundo o banco de dados do clinicaltrials.gov - mantido pelo governo americano -, 24 testes clínicos de fase 3 para câncer estão recrutando voluntários no Brasil. Todos realizados pela indústria farmacêutica.

Dificuldades. Cerca de 60% dos pacientes incluídos no estudo eram atendidos no Inca. A distribuição desigual revela a principal dificuldade para realizar estudos sem o apoio da indústria. "A maioria dos centros de pesquisa nas universidades escolhe trabalhar sob a coordenação da indústria para ter acesso à estrutura e aos recursos necessários para realizar os testes", afirma Gil. Por isso, estudos independentes não costumam atrair interesse.

"Há também um problema cultural: muitos grupos em universidades têm dificuldade para realizar parcerias, algo essencial para pesquisas assim. Querem garantir uma visibilidade que cai quando você faz trabalhos em uma rede de pesquisa."

Independência. "O estudo parece promissor", afirma Álvaro Atallah, presidente da Cochrane do Brasil, principal banco de revisões sistemáticas em medicina. Mas ele pondera que os medicamentos ainda foram fornecidos pela indústria farmacêutica Eli Lilly (embora ela não tenha participado do desenho do estudo).

Ele defende que todos os estudos clínicos sejam realizados por entidades independentes. O dinheiro seria pago pela indústria a uma agência que contrataria os responsáveis por conduzir os testes, sem contato - direto ou indireto - com a indústria.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica, João Massud Filho, deixar os testes a cargo de uma agência governamental não resolve o problema. "Uma pesquisa clínica bem feita independe de quem está financiando", diz. "O importante é garantir a transparência e o tratamento ético dos sujeitos de pesquisa." Ele admite que pode haver, em algumas situações, o interesse de limitar a divulgação dos resultados. "Mas dá para resolver esse problema com uma lei que garanta transparência na divulgação dos dados."

Taxas. José Ruben de Alcântara Bonfim, coordenador executivo da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos, acredita que nem mesmo as agências reguladoras deveriam cobrar taxas da indústria para avaliar suas propostas de novos medicamentos. E cita como exemplo a nova agência francesa de vigilância farmacológica - a ANSM. Seu orçamento para avaliar a viabilidade de novos medicamentos - cerca de 140 milhões de euros (R$ 355 milhões) - virá exclusivamente dos cofres do Estado.

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