Pelo menos dois morrem em protesto na Bolívia

Mineiros entraram em choque com polícia; Chávez e Kirchner cancelam ida ao país.

Marcia Carmo, BBC

05 de agosto de 2008 | 18h57

Pelo menos duas pessoas morreram e 33 ficaram feridas nesta terça-feira na Bolívia depois que a polícia tentou liberar uma estrada bloqueada por mineiros que realizavam um protesto contra o governo.As mortes ocorreram em meio a um clima de crescente tensão entre seguidores do presidente Evo Morales e seus opositores e a cinco dias da realização do referendo revogatório que decidirá a permanência ou não no poder de Morales e de oito prefeitos (governadores). Segundo a imprensa boliviana, as mortes ocorreram durante enfrentamentos entre os mineiros e os policiais na estrada, que liga o Departamento (equivalente a estado) de Cochabamba (centro do país) às cidades de La Paz e Oruro. O vice-ministro de governo, Rubén Gamarra, disse que os mineiros teriam queimado um ônibus e dinamitado uma ponte.Os mineiros querem mudanças nos benefícios concedidos à categoria e contam com o apoio da central sindical COB (Central Operária Boliviana), a maior da Bolívia, nos protestos nas estradas.Viagem canceladaTambém nesta terça-feira, o chamado Comitê Cívico (órgão que reúne desde políticos a empresários e trabalhadores) do Departamento de Tarija anunciou uma greve por tempo indeterminado, além de manifestações nas ruas. O protesto foi um dos motivos que levou Morales a pedir aos colegas da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner, a desistissem da viagem que fariam, nesta terça-feira, a Tarija. O pedido foi feito minutos antes do embarque de Chávez e Cristina em Buenos Aires. "Falei com meu amigo Evo agora e ele me disse que por segurança era melhor suspendermos a viagem", disse o líder venezuelano numa entrevista na capital argentina. Chávez disse que a idéia da viagem seria mostrar apoio a Morales no referendo. Segundo o governo argentino, os três falariam ainda de questões energéticas. Por sua vez, Cristina Kirchner disse que espera que "a situação se normalize na Bolívia".DivisãoA Bolívia, na opinião de diferentes analistas, está cada vez mais dividida entre as regiões ricas, que votaram por esta autonomia, e as regiões menos favorecidas, onde se concentram os seguidores de Morales. Tarija é um pólo produtor de gás, de onde se exporta o produto para o mercado argentino. Esse departamento foi um dos quatro - dos nove do país - que votaram, recentemente, a favor da autonomia financeira e política do governo central. Quando os Departamentos votaram pela autonomia, o presidente foi contra, dizendo que as votações eram ilegais.Agora, a oposição que controla estas regiões critica Morales e afirma que o referendo revogatório, marcado para o próximo domingo, é inconstitucional.Os governadores e líderes cívicos desses Departamentos, muitos deles em greve de fome, querem que o presidente reconheça o resultado dos referendos nessas regiões, que aprovaram a autonomia.Eles também querem que o governo volte atrás na decisão de cortar verbas que eram repassadas a eles pelo governo central. Os recursos estão sendo usados no pagamento de benefício para pessoas pobres e com mais de 60 anos. Não é a primeira vez que líderes opositores fazem greve de fome contra o governo central.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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