Pensando pequeno

Universidades criam cursos de nanotecnologia de olho em expansão futura do mercado

Larissa Linder ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Considerada estratégica por pesquisadores, a nanotecnologia, ciência que estuda a matéria na escala dos átomos, tem ganhado espaço nas universidades brasileiras, ainda que a passos miúdos. Desde o ano passado, as Universidades Federais do Rio e do Rio Grande do Sul e a PUC carioca criaram cursos e disciplinas sobre o assunto. Esta última foi a que mais inovou, com uma graduação de Engenharia de Nanotecnologia. Já incluída no próximo vestibular, ela é apenas a sexta aberta no mundo com esse perfil.

O coordenador do curso da PUC-Rio, Marco Aurélio Pacheco, disse que a decisão de abrir espaço para a nanotecnologia foi baseada no mercado. "Percebemos que daqui a alguns anos haverá uma grande demanda por esses profissionais."

Antes de oferecer a graduação, Pacheco fez uma pesquisa com alunos. "Queria saber quantos fariam, caso a oferecêssemos." Entre os calouros, 41% declararam interesse.

O professor decidiu, primeiro, incluir na grade uma disciplina livre de Introdução à Nanotecnologia. Mais de 30 alunos assistiram à aula no semestre passado. Neste, são mais de 50. "Eles realmente estão interessados em saber mais sobre o assunto", diz Pacheco.

Entre esses interessados está Cáthya Guimarães. Ela cursa o 1º ano de Engenharia Química e sempre gostou da área. Cursou a disciplina livre e decidiu fazer dupla graduação - em Engenharia Química e em Engenharia de Nanotecnologia. "Acho que agora não há tanta demanda no mercado, mas daqui a alguns terá, com certeza."

A UFRJ passou este ano a oferecer bacharelado em Nanotecnologia. "Vimos que era necessário um curso mais multidisciplinar para atender às demandas da nanotecnologia", conta Renata Simão, coordenadora do curso na federal.

Marlon Jefferson Gomes, de 19 anos, diz que começou a se interessar pelo assunto muito antes de ingressar no bacharelado. "Acho que vai ter muito emprego, porque é uma coisa nova. Então quem já estiver pronto para trabalhar com isso vai se destacar."

Também este ano, a UFRGS dividiu seu antigo curso de Física em cinco, cada um com 20 vagas. Um deles é o Bacharelado em Física: Materiais e Nanotecnologia. A procura, porém, ficou abaixo do esperado. "Tivemos concorrência de 2,5 candidatos por vaga, até porque quase não divulgamos. Mas acredito que o mercado vai pedir esses profissionais mais tarde e é importante ter o curso", afirma Naira Balzaretti, diretora do Centro de Nanociência e Nanotecnologia da universidade.

A empresa americana de pesquisa Lux Research prevê que, em 2014, sejam vendidos cerca de US$ 2,6 trilhões em produtos que incorporam nanotecnologia. Isso representa 15% de todos os manufaturados vendidos no mundo.

Hoje, apesar de ainda manter a aura futurista, a nanotecnologia é utilizada por indústrias de várias áreas para produzir coisas que fazem parte do cotidiano. Ela permite criar tecidos mais leve e resistentes, por exemplo, ou desenvolver materiais menos agressivos ao ambiente.

"Quase toda grande empresa química tem hoje uma área ou pesquisa que envolve a nanotecnologia", diz Luiz Lira, pós-doutorando em Química pela USP. "Ela é usada tanto para aperfeiçoar o sabão em pó quanto para produzir alguma coisa a partir do petróleo."

Erro histórico. Para o pesquisador da USP Henrique Toma, um dos maiores estudiosos brasileiros do assunto, o País ignorou por muito tempo a tecnologia anterior à nano, a microtecnologia, que trabalha em escala maior e é usada para fabricar componentes de aparelhos eletrônicos. Toma afirma que agora o Brasil corre o risco de cometer o mesmo erro com a nanotecnologia.

"Aplaudo decisões como as tomadas no Rio, de abrir cursos de graduação", diz. "Sem recursos humanos, não se cria tecnologia nova no País."

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