''Pensava em fugir, pular da ponte''

Após ser banida por doping, atleta revela que se desesperou e acusa médico Eduardo De Rose de perseguição

Entrevista com

Rodrigo Rangel, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Banida do esporte, a ex-nadadora Rebeca Gusmão revela, em entrevista ao Estado, que por pouco não perdeu a cabeça durante o processo por doping. A decisão de bani-la, tomada pela Federação Internacional de Natação (Fina), foi confirmada dia 13 pela Corte Arbitral do Esporte (CAS), a mais alta instância da justiça desportiva.

A brasileense de 25 anos leva uma vida que destoa dos tempos de atleta. Foi aos Jogos de Atenas e a três Pan-Americanos - no Rio/2007, ganhou dois ouros. Estava classificada para Pequim quando exames detectaram testosterona exógena em seu organismo. O hormônio masculino tem efeito anabolizante.

Rebeca vive com o marido num modesto apartamento sobre um prédio comercial da Asa Norte. Estuda Educação Física, pensa em dar aulas. Como não pode competir profissionalmente, além de treinar futebol, se aventura no levantamento de peso. Nesta entrevista, acusa o médico Eduardo de Rose, integrante da Agência Mundial Antidoping, de estar por trás de uma armação para tirá-la do esporte.

Como você recebeu a decisão que te baniu do esporte?

Foi um baque. É difícil dedicar toda a vida a algo e receber uma pena como essa. Acho que Deus me tirou desse meio porque não mereço ficar nesse jogo sujo. Você se mata por um país, tem sequelas de um esporte, e não fica nem com um plano de saúde. Mas minha vida está no esporte. Se eu tiver de ser a mulher mais forte do mundo, vou ser, no levantamento de peso, no vale-tudo. Do esporte, ninguém vai me tirar.

Como sua família enfrentou essa situação?

Minha mãe emagreceu quase 20 quilos. Meu pai está abalado. Muitas vezes, na frente deles, tinha de me mostrar bem, mas estava acabada por dentro. Não é qualquer pessoa que conseguiria passar por isso. Não fosse minha família, meus amigos, meu marido, teria feito uma besteira.

O que você pensou em fazer?

Pensava em fugir, pular da ponte. Mas aí, o Guto, meu marido, falava que iria gerar mais sofrimento se fizesse isso.

Quando pensou nisso?

Mais no início. Na sexta-feira (dia do anúncio do banimento), não passou pela minha cabeça. Doeu, mas o início foi mais difícil. Estava na CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), me suspenderam e três minutos depois o Nuzman (Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) ligou para o Coaracy (Nunes, presidente da CBDA) falando que eu tinha fraudado o exame, que era suspeita de falsidade ideológica... Foi uma coisa de louco estar no telefone com meu pai e ouvir minha mãe chorando no fundo, perguntando: "Por que estão fazendo isso com a minha filha?" (Rebeca chora). Doeu ser tachada de vergonha, de criminosa.

Afinal, você se dopou ou não?

Não. Se tivesse tomado algo seria mais fácil e teria pedido desculpas. Mas a indignação é essa. Nunca usei nada.

Como explicar os vários positivos?

Tudo aconteceu por causa do erro em um exame. Nesse teste, em 2006, no Troféu José Finkel, provamos que a degradação bacteriana foi responsável por um falso positivo. O laboratório (Armand-Frappier, em Montreal) errou e era preciso acobertar. O De Rose declarou que era brincadeira eu nunca ter usado nada e que ia me pegar. E tem as entidades também. Fiquei sozinha.

Você está dizendo que haveria um plano arquitetado para te flagrar?

Armaram. Não é como se soubessem que eu tomava algo e me pegassem. O problema foi o exame de 2006. Quando um laboratório erra, tem que pagar indenização. E acho eu disse que entraria com uma ação contra eles. A corda arrebentou no lado mais fraco.

Que erro foi esse?

Em 2006, fiz três exames em 24 horas. O primeiro e o terceiro deram degradação bacteriana e o do meio, sem degradação. Esse do meio foi negativo, e os outros deram positivo para testosterona. Então a Fina (Federação Internacional de Natação) solicitou a contraprova. As duas amostras degradadas com bactéria continuaram degradadas e dando positivo. A outra, que tinha dado negativo, também se degradou, porque ficou muito tempo guardada. A conclusão que se tira, com base em estudos científicos apresentados no processo, é que a bactéria produz testosterona. O laboratório que fez o exame não considerou isso.

Mas você teve oportunidade de usar esses argumentos...

A CBDA levou isso em conta e não me puniu. A Fina também não e preferiu mandar o caso para a CAS, que devolveu para a Fina. Aí, fui suspensa até 2010. A própria Fina tinha dúvidas e tomou providências com medo de ser cobrada pela Agência Mundial Antidoping .

Depois disso, no Pan do Rio, houve outro positivo, também para testosterona exógena.

O único exame levado para o Canadá, entre 1.500 testes, foi o meu. E para o mesmo laboratório. Mandei um representante para acompanhar a abertura da contraprova, mas não o deixaram ficar junto.

Você também foi acusada de ter fraudado um dos exames no Pan.

Fiz cinco exames no Pan, dias 12, 13, 18, 22 e 29 de julho. O único positivo foi o do dia 13. O do dia 12, que me acusaram de fraudar, foi o laboratório que trocou de frasco. Abriram investigação na polícia e eu fui inocentada.

Quem queria te prejudicar?

Quem pediu o DNA foi o De Rose, quem pediu para realizar o exame do dia 13 foi o De Rose, quem pediu para mandar minha urina para o Canadá foi o De Rose. É muito poder para uma pessoa só. Me sinto como um troféu para essas pessoas. Nunca pensaram: "Aquela menina é especial".

Por que você se acha especial?

Porque tenho um biotipo que qualquer atleta gostaria de ter, um nível de força invejável, sou altamente competitiva.

Por que você seria um troféu?

Por preconceito. É muita gente com inveja, que desafiava o De Rose e dizia: "Não é possível que você nunca pegou aquela menina". Mas acho que o principal é o fato de não assumir que um laboratório errou. O De Rose agiu para não prejudicá-los.

Causa estranheza a rapidez com que você adquiriu esses músculos. Você passou de 66 para 82 kg em quatro anos. Como explicar?

Isso é mal de brasileiro, que julga pela aparência. Em 2003 (com 19 anos) tive minha primeira menstruação e ganhei corpo a partir daí. Minha vida passou a ser só esporte.

Mas só exercício leva a esse corpo?

Comecei a malhar com 12 anos. O Michael Phelps ganhou 15 quilos em dois anos. Por que só eu sou questionada? Mulher no Brasil tem que ter bunda, peito e usar maiô apertado. Aí me dizem que tem atleta magrinha que se dá bem. Legal, gente. Se as pessoas se contentam em ficar em 8º na Olimpíada, bom. Sabe quando vão chegar em primeiro? Nunca.

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