PERFIL-Na iminência de condenação, Dirceu falou em se reiventar

"Eu vou ter que me reinventar", escreveu José Dirceu a um amigo por email, após ouvir o relator da ação penal do chamado mensalão em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, pedir sua condenação por corrupção e chamá-lo de "mandante" de um esquema de compra de apoio político.

ANA FLOR, Reuters

09 de outubro de 2012 | 19h20

Outros cinco ministros confirmaram o voto do relator, selando a condenação de Dirceu, principal réu do caso.

No email, ao qual a Reuters teve acesso, o ex-ministro-Chefe da Casa Civil disse que uma condenação pelo STF, sobre a qual tinha poucas dúvidas, era "mais um desafio" para um ex-guerrilheiro que ajudou a construir "o maior partido do Brasil" --ex-presidente do PT, foi ele o artífice das alianças que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2002.

Sete anos depois de deixar o Planalto, Dirceu mantém influência no governo, no partido e a adoração de militantes --sentimento que parece só ter crescido após a crise do chamado mensalão, que o tirou do poder.

Afastado oficialmente dos palcos da política desde 2005, quando deixou a Casa Civil e teve seu mandato de deputado cassado em meio à crise do chamado mensalão, agora em julgamento no Supremo Tribunal Federal, Dirceu nunca se distanciou da articulação política, nem deixou de exercer seu papel de liderança no PT.

As razões da manutenção do seu poder e influência enquanto outros nomes históricos do partido se afastaram, está, segundo pessoas próximas e até mesmo desafetos, na obstinação e disciplina do ex-guerrilheiro, que chegou a fazer uma cirurgia plástica no exílio em Cuba para voltar ao país clandestinamente durante a ditadura militar (1964-1985).

"O trabalho, a competência, a liderança de Dirceu foram a base da aliança que elegeu Lula. No governo, sua capacidade de trabalho e visão política fizeram dele um 'primeiro-ministro de fato'... Era o candidato natural à sucessão de LulPERFRILa, daí esta denúncia contra ele", afirma o amigo e advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para quem nada se apurou contra Dirceu ao longo do processo.

Se tem amigos fiéis e admiradores no PT e na esquerda, Dirceu também acumulou ao longo dos anos inimigos no partido e entre siglas aliadas. Um deles, o ex-deputado petebista Roberto Jefferson, delatou o mensalão e foi o responsável por colocar Dirceu no centro das denúncias, que começaram a ser julgadas em agosto em um julgamento sem previsão de acabar.

Na ação penal do mensalão, o maior processo da história do STF, Dirceu voltou aos holofotes como principal dos 37 réus do julgamento -- o Ministério Público Federal, acusou o ex-ministro de ter montado o esquema de compra de apoio político ao governo Lula no Congresso.

PRIMEIRO-MINISTRO

Em meio ao turbilhão que pode levá-lo à prisão, Dirceu não deixou de se dedicar aos problemas políticos de seu partido.

Em um artigo em seu blog no início de setembro, enquanto o PT atacava o líder nas pesquisas em São Paulo, Celso Russomanno (PRB), Dirceu afirmou que Russomanno era tarefa apenas para o segundo turno e o foco naquele momento para o PT precisava ser atacar o tucano José Serra para garantir a vaga na segunda fase da corrida eleitoral.

"Esta capacidade de análise, de ver a política tanto de cima quanto com lente de aumento, sempre fez de Dirceu uma liderança essencial", disse outro aliado que integrou o primeiro escalão na mesma época em que Dirceu ocupou a Casa Civil.

Mesmo longe do Planalto, não deixou de lado as atividades políticas. "Nunca saí daqui", disse ele ao final de 2010 em um evento no Planalto, ao ser perguntado por jornalistas como era estar de volta ao local.

Uma prova disso foram as articulações, entre 2009 e 2010, para costurar as alianças regionais que ajudariam na vitória de sua substituta na Casa Civil, Dilma Rousseff, na eleição presidencial. Em poucos meses, viajou por quase todos os Estados do país, foi recebido por governadores e lideranças aliadas e de oposição.

Continuou a utilizar o conhecimento de quem, entre 1995 e 2002, dirigiu o PT com o único foco de levar o partido ao Planalto.

"Ele dizimou as esquerdas mais radicais do partido, escolheu novas lideranças, reforçou tendências moderadas para unificar um partido que até então era um ajuntamento de forças individuais", afirma um integrante de um partido aliado.

Durante seus menos de três anos no Planalto, Dirceu teve embates com muitos aliados e chegou a desagradar Lula com seu estilo de comando na Casa Civil. O então ministro controlava o governo e era chamado de "primeiro-ministro".

ALIANÇAS HETERODOXAS

As tensões, segundo integrantes do governo à época, eram geradas pela concentração de poder nas mãos de Dirceu e a visão de Lula de que a Casa Civil precisava gerir mais as ações do governo e ter menos funções políticas.

Além disso, relata um ex-ministro de Lula, Dirceu dava demonstrações de poder que desagradavam o ex-presidente, com viagens no helicóptero presidencial pelo país, conversas com empresários e negociações políticas com aliados.

"Era quase como se o quarto andar do Planalto fosse uma entidade autônoma", disse mais um integrante daquele governo, referindo-se ao local em que se localiza a Casa Civil. O gabinete do presidente fica no terceiro andar.

Em uma viagem de Lula ao exterior, segundo o relato de outro ocupante do primeiro escalão daquele governo, Dirceu convocou os ministros e até o vice-presidente à época, José Alencar, no exercício da Presidência e à época integrante do PL, para uma reunião, enfurecendo Lula.

Ao arquitetar as alianças que levaram Lula à Presidência depois de três tentativas frustradas, Dirceu construiu apoios até então pouco ortodoxos para o partido.

Identificou, inclusive, que Alencar, um empresário mineiro ligado a um partido de direita, o então PL, era o melhor nome para o posto de vice --ao trazer um empresário com perfil conservador, acalmou parcelas da sociedade que temiam os efeitos do radicalismo do PT no governo.

"Nunca houve um presidente do PT com tanta capacidade de organização", disse à Reuters uma pessoa que já trabalhou com Dirceu.

VIDA CLANDESTINA

Mineiro de Passa-Quatro, Dirceu começou sua militância política no movimento estudantil em 1965, foi preso no congresso da União Nacional dos Estudandes (UNE) em Ibiúna, em 1968, acabou solto no ano seguinte junto com outros presos, em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Elbrick, que havia sido sequestrado por grupos de esquerda.

Exilado em Cuba, recebeu treinamento de guerrilha, usou o codinome Daniel --pelo qual é chamado até hoje pelo líder cubano Fidel Castro. Fez uma plástica que alterou suas feições e voltou para uma vida clandestina no Brasil, onde foi viver no Paraná com uma mulher que só soube sua verdadeira identidade anos depois. Antes da Lei da Anistia, em 1979, retornou a Cuba e desfez a cirurgia.

Já no PT, construiu com Lula, que vinha do movimento sindical, uma parceria com base mais na complementaridade do que nas afinidades pessoais. Segundo ex-companheiros, um tinha o carisma popular, outro a capacidade de planejamento e disciplina.

Enquanto suas consultorias privadas pós-governo renderam denúncias de tráfico de influência, a forma como saiu da Câmara --sem renunciar, como outros acusados de participar do mensalão, foi cassado e perdeu o direito de concorrer até 2015-- e seus discursos para a militância lhe renderam a imagem de um mártir para muitos no partido.

"Até Lula pediu que ele renunciasse (ao mandato), mas pesou para ele a visão de que, enfrentando o processo de cassação até o fim, faria o que a militância esperava dele", disse um amigo.

Agora, com a condenação pela maioria no STF, e a possibilidade de ser preso, Dirceu se prepara para um novo capítulo de seu caminho político. Segundo uma pessoa próxima, Dirceu não tem mais planos de concorrer a cargos públicos. Mas já colocou em curso outra frente de batalha: irá escrever um livro, em que quer relatar sua versão dos fatos sobre o escândalo do mensalão.

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