Pergunte à internet

Circula como opinião pública oficial uma unanimidade falsa: a que dá por resolvida a ocupação do Jardim Botânico por seus moradores. Cobrem o assunto com uma nata espessa de preceitos doutrinários que toda divergência que se atreve a sair da sombra vira pecado contra a sabedoria popular.

Marcos Sá Corrêa, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Ainda bem que existe internet, que nos dá histórias como a de Rachel, assistente social de 65 anos. Nasceu, cresceu e trabalhou no bairro. Critica "os filhos e netos de ex-funcionários públicos" que seguem nas residências funcionais após pais e avós se aposentarem ou morrerem. E lembra que, no Rio, para a demarcação das Áreas de Interesse Social, que devem passar às suas mãos mesmo se ocupadas irregularmente, é pobre quem ganha até 6 salários mínimos. Mas um assistente social vale no Ministério da Saúde cerca de 3 mínimos. Pela tabela do governo, a assistência social tem de funcionar de baixo para cima.

Rachel se diz "apaixonada" pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico. E teme "que a pressão seja tanta" a ponto de engolir aquele terreno da União com projetos habitacionais.

Responde Luísa, que frequenta o jardim "desde criança". Recorda o "longo período", entre 1965 e 1985, em que aquilo tudo parecia abandonado. E, apesar dos pesares, "lá estava, sofrido e desalinhado, oferecendo seus bancos e pérgolas, mostrando seus muitos recantos encantadores, exibindo tantas espécies botânicas".

Mesmo sem dono, parecia público, porque era difícil enxergar as centenas de casas que se ali multiplicavam. "Foi imensa surpresa saber do que se passa intramuros numa área destinada a um bem público de tão grande importância. Tudo indica que ela sofreu e sofre um processo de favelização." Agora a invasão continua tapada, sob a cobertura da administração pública, pelas "mais estapafúrdias versões" em favor "de fatos injustificáveis".

Em outras palavras, Luísa pede que as autoridades deem à opinião pública pelo menos o acesso aos fatos, "inclusive os reais direitos daqueles que ali habitam, se porventura existirem". Ela só sabe que a ideia de conciliar o Jardim Botânico com um programa habitacional só pode ser conversa fiada.

Se Luísa não pede muito, Sergio quer mais. Quer saber por onde anda, se é que anda, o inquérito administrativo do Serviço do Patrimônio da União para apurar "os crimes, abusos e ilícitos cometidos pelos funcionários públicos superiores e subalternos" que privatizaram em segredo ''um bem público de uso comum e alto interesse científico, econômico, cultural, turístico e de lazer". Vai ser difícil. O chefe do Serviço do Patrimônio da União no Rio é o primeiro a dizer que não consertará o jardim, enquanto não aparecer uma proposta que contente os invasores.

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