Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

Pesadelos de um sedutor

Um tuíte de seu filho biológico após a cerimônia do Globo de Ouro põe na berlinda o aclamado diretor de Blue Jasmine

Jessica Winter - Slate,

18 de janeiro de 2014 | 16h00

Há mais de 20 anos, todo novo filme de Woody Allen traz de volta a vida pessoal do diretor: sua tempestuosa separação de Mia Farrow, em 1992; seu caso com a adolescente adotada por Mia, Soon-Yi Previn (com a qual Allen depois viria a se casar); e, de longe a pior parte, as acusações de que ele molestara a filha que adotara com Mia, Dylan, de 7 anos.

As controvérsias em torno de Allen voltaram a esquentar agora com sua 24ª indicação para o Oscar por seu último filme, Blue Jasmine, que também levou à indicação das atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkyns. Em novembro, Vanity Fair publicou uma revisita de Maureen Orth ao escândalo Allen-Farrow, incluindo a primeira entrevista já feita com Dylan. A entrevista foi uma bomba: Dylan (hoje usando outro nome) não vacilou em relação à história que contou aos 7 anos sobre Woody molestando-a e atacando-a sexualmente no sótão da casa da mãe, em Connecticut, em 4 de agosto de 1992.

Seu irmão Ronan Farrow, possível futuro astro, apoiou-a. Depois de Allen receber no domingo passado uma homenagem pelo conjunto da obra, na cerimônia de premiação do Globo de Ouro, Ronan tuitou: "Perdi o tributo a Woody Allen. Foi antes ou depois de Annie Hall que eles falaram da parte em que uma mulher confirmou publicamente que ele a molestou aos 7 anos?".

Assim, que pode um observador deduzir da debacle Allen-Farrow, transcorridas duas décadas?

Defensores de Woody Allen se apegaram sempre a um simples fato: ele nunca foi acusado de um crime, muito menos condenado. O que se sabe é que, em agosto de 1992, Mia e Dylan visitaram o pediatra da menina, que depois contatou as autoridades sobre uma acusação de abuso. A promotoria do Estado de Connecticut pediu em seguida à Clínica de Abusos Sexuais contra Crianças do Hospital Yale-New Haven para avaliar Dylan. Em março de 1993, a clínica concluiu que "Dylan não fora abusada sexualmente", segundo Maureen Orth na Vanity Fair.

Caso resolvido? Não necessariamente. Três meses depois, em junho, Elliot Wilk, da Suprema Corte do Estado de Nova York, decidiu contra Woody Allen, que pretendia brigar com Mia pela custódia de seus três filhos. Wilk criticou as descobertas do Hospital Yale-New Haven, declarando que a equipe do hospital não tinha entrevistado Dylan, tinha se recusado a testemunhar no julgamento, exceto por um depoimento escrito, e havia destruído as anotações sobre o caso. Em sua primeira matéria para a Vanity Fair sobre o caso, publicada em 1992, Orth tinha pelo menos 25 entrevistas on the record - com fontes identificadas e anônimas - afirmando que Allen era "completamente obcecado" por Dylan: "Ele parecia não poder manter as mãos longe dela", Orth escreveu.

No julgamento de junho de 1993, Wilk também negou a Allen qualquer direito de visita a Dylan ou a seu outro filho adotivo com Mia - Moses, de 15 anos. Em maio de 1994, numa audiência que decidiria sobre a custódia ou a permissão a mais visitas para Allen, a seção de apelações da Suprema Corte citou um "claro consenso", entre psiquiatras envolvidos no caso, de que "o interesse de Allen em Dylan era anormalmente intenso".

Na defesa de Allen, ele e seus advogados argumentaram que Mia, enfurecida com sua descoberta do caso de Allen com Soon-Yi, poderia ter manipulado Dylan para fazer acusações. "O sr. Allen especificamente nega as acusações de que teria abusado sexualmente de Dylan", a corte de apelações escreveu em 1994, "e caracteriza essas acusações como parte do extremo exagero da sra. Farrow sobre seu relacionamento com a srta. Previn". À revista Time, em 1992, Allen disse: "A atmosfera lá em Connecticut está muito carregada de raiva contra mim. Então, é possível que isso tenha emergido daí. Mas também pode ter sido inventado intencionalmente".

Em termos estritamente gerais, essa hipótese não é absurda. "É uma ocorrência frequente. Muitas alegações de abuso sexual infantil emergem em momentos de rompimento do casal ou de disputa de custódia", diz David Finkelhor, professor da Universidade de New Hampshire e diretor do Centro de Pesquisas de Crimes contra Crianças. "Algumas pessoas inventam uma acusação para tentar mudar o conflito de acordo com seus interesses, ou para ganhar simpatia para suas reivindicações."

Mas Finkelhor, novamente falando em termos gerais, também vê casos num cenário completamente diferente. "Em outras ocorrências, as pessoas fazem acusações sobre coisas que antes estavam dispostas a desconsiderar ou que as crianças estavam mantendo em segredo por medo de separar a família", afirma. "Essas coisas vão se revelar no momento (de um divórcio ou de uma disputa de custódia), porque aí as pessoas se sentem mais livres para articulá-las. As consequências de perceber que um abuso sexual está acontecendo dentro da família são tão devastadoras que não é incomum que as pessoas ignorem esses fatos - ou tentem ‘explicá-los’."

Numa entrevista à revista Time, Woody Allen sugere fortemente existir uma relação de "causa e feito" entre a descoberta de seu romance com Soon-Yi por Mia Farrow e as acusações de abuso. Mas é difícil ver essa relação a partir de uma linha do tempo dos acontecimentos. Mia descobriu o caso quando Allen deixou fotografias pornográficas de Soon-Yi no seu móvel perto da lareira, em janeiro de 1992 - oito meses antes de Dylan fazer as acusações. Pelas contas de Orth, Allen já estava fazendo terapia por apresentar um "comportamento inapropriado" com Dylan antes da revelação do affair.

Na decisão pronunciada em maio de 1994, juízes da corte de apelação de Nova York afirmam, em relação aos eventos de 4 de agosto de 1992, que "o testemunho dado no julgamento pelos responsáveis pelas crianças à época, o videotape de Dylan feito pela sra. Farrow no dia seguinte e as considerações sobre o comportamento de Dylan em relação ao sr. Allen antes e depois do alegado abuso sugerem que o abuso de fato ocorreu". Ainda que "as evidências que sustentam tais alegações sejam inconclusivas", a corte disse, "nossa visão refuta a versão de que a sra. Farrow pudesse ter fabricado tais fatos sem nenhuma base".

Ao se pronunciarem agora, Ronan Farrow e Dylan Farrow (hoje Malone Farrow) puseram as ações de Allen sob duros holofotes pela primeira vez em muito tempo. Mas, ainda que as declarações dos dois tenham sacudido o consenso do "deixa disso" que se formou em torno das acusações ao cineasta pouco depois que o escândalo estourou, dificilmente irão quebrá-lo. Esse consenso é especialmente forte em Hollywood, onde Allen é provavelmente o mais proeminente beneficiário de um certo mecanismo de defesa psicológica da sociedade ocidental. Atores de primeiríssimo time nunca deixaram de implorar por trabalhar com ele, nem mesmo nos anos 1990, e jamais deverão deixar de fazê-lo. Durante o tributo a Woody Allen no Globo de Ouro, era difícil encontrar alguém no salão que nunca tivesse participado de um de seus filmes.

Curiosamente, um mecanismo psicológico semelhante é um dos grandes temas de Blue Jasmine. No papel indicado ao Oscar, Cate Blanchett interpreta a mulher de um financista corrupto. Enquanto seu casamento navega em águas tranquilas, Jasmine desconsidera todas as suspeitas em torno dos inacreditavelmente lucrativos negócios do marido. Somente quando descobre o caso dele com uma mulher mais nova é que ela o denuncia ao FBI em busca de vingança. Então, Jasmine faz o que faz pelas razões erradas, talvez - mas sua desconfiança termina por ser certa. É uma longa, intensa, hiperdramática cena. Muito provavelmente, os produtores do Oscar vão exibi-la no clipe do prêmio de Melhor Atriz, que será anunciado no dia 2 de março.

TRADUÇÃO DE IVAN MARSIGLIA, JULIANA SAYURI E ROBERTO MUNIZ

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