Pesando geleiras com um satélite

O aquecimento global está reduzindo o gelo nas cordilheiras e geleiras. Nos últimos anos, cientistas têm tentado estimar a velocidade com que o gelo desaparece. Agora, por um novo método, concluíram que o degelo está ocorrendo mais lentamente do que se acreditava.

Fernando Reinach,

22 Março 2012 | 03h08

Não é fácil estimar a quantidade de água perdida. A primeira dificuldade é que parte do gelo derrete no verão e é substituído por novas precipitações. E existem mais de 160 mil geleiras e topos de montanhas, mas menos de 120 foram estudadas com cuidado. E somente 37 foram acompanhadas por mais de 30 anos.

Com base nessa amostra minúscula, foi estimado o efeito do aquecimento global sobre o estoque mundial de gelo e projetado quanto subiria o nível dos oceanos caso todo esse gelo derretesse.

A qualidade dos dados está melhorando. Desde 2002, são coletados dados com um equipamento chamado Gravity Recovery and Climate Experiment (Grace), que permite estimar a massa de gelo em cada geleira e acompanhar sua variação ao longo dos anos.

Os cientistas montaram uma balança muito sensível em um satélite. Como você sabe, o peso de um objeto depende da sua massa e da força da gravidade. A gravidade depende da quantidade de massa que atrai o objeto. Quando o satélite passa sobre o mar, é possível medir o peso do objeto na balança. E, sabendo sua massa, calcular a força da gravidade naquele ponto. Logo depois, o satélite passa sobre os Andes, e o peso aumenta, pois a massa da cordilheira exerce força gravitacional maior.

Com isso, é possível calcular a massa de cada região do planeta. Como o satélite passa de seis a oito vezes por ano, é possível acompanhar a variação da massa ao longo dos anos.

Essa variação foi medida em mais de 20 regiões cobertas por gelo, oito vezes por ano, durante 8 anos. Como a massa da montanha não muda, as diferenças observadas são causadas pela mudança na quantidade de gelo.

Os gráficos mostram que em alguns lugares, como o Alasca, a massa sobe e desce bastante a cada ano, mas a média vai se reduzindo ao longo dos anos (o degelo está ocorrendo rapidamente). Na Islândia, a variação é menor durante o ano e a redução ao longo dos anos também é pequena.

Somando os resultados, é possível calcular quanto gelo o planeta perde nessas 20 grandes regiões. Os resultados confirmam a perda. Na média global, são cerca de 150 gigatoneladas de gelo a menos por ano, o que pode levar a um aumento de 0,41 milímetro por ano no nível dos oceanos. Esse número é um terço das estimativas anteriores, baseadas em algumas geleiras individuais.

A boa notícia é o que parece estar ocorrendo no Himalaia. Lá também estamos perdendo geleiras, mas num ritmo que parece ser um décimo do estimado anteriormente.

Se por um lado esses resultados são animadores, por outro confirmam o que se sabia. O aquecimento global está realmente reduzindo as reservas de água doce e aumentando o nível dos oceanos.

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO, MAIS INFORMAÇÕES: RECENT CONTRIBUTIONS OF GLACIERS AND ICE CAPS TO SEA LEVEL , RISE. NATURE,  VOL. 482,  , PÁG. 514,  2012

 

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