Pescadores têm raiva do animal, diz cientista

Embora dócil e inofensivo, golfinho não é bem-visto por ribeirinhos, com quem disputa peixes nos rios

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h07

Ao contrário de seus parentes marinhos, que em geral desfrutam de prestígio e simpatia da humanidade, os golfinhos de rio estão entre as espécies mais ameaçadas do mundo. Na Amazônia, historicamente, nunca foram muito benquistos pelos ribeirinhos.

A raiva em relação ao dócil mamífero, diz o povo, vem das lendas de que o bicho se transformava num formoso rapaz que seduzia as moças. Não foram poucas, por sua vez, que se aproveitaram da crença para justificar uma gravidez antes do casamento.

Tanto que alguns animais sempre acabaram mortos, seja de propósito ou acidentalmente, enroscados em redes de pesca, e seus corpos eram aproveitados para as mais diversas mandingas e como amuleto. "Acredita-se que as 'partes' do animal, como o povo diz, a genitália, e também os olhos, funcionam como atrativos do amor. Fazem o sexo oposto se apaixonar", conta Vera Silva, do Inpa.

Outra crença é de que os órgãos podem trazer cura para várias doenças. "Usam para fazer perfume, espantar mau-olhado, aproveitam a banha do golfinho para tratar o mal do chifre dos bois, uma colher de chá para curar gripe", lembra Miguel Migueis, da Ufopa.

Hoje, no entanto, os pesquisadores que investigam a morte dos botos acreditam que o principal motivo do desamor pelo bicho é bem mais prosaico.

Na prática, esses golfinhos competem com o homem por peixes. Quando pescadores passaram a instalar redes de pesca, começaram os conflitos. "O boto é adaptado para explorar a floresta inundada, mas ele não é bobo. Quando vê alimento farto preso, ele se aproxima para comer, pega os peixes, acaba estragando a rede", afirma Vera. "Por isso, o pescador não gosta dos botos; podendo, ele mata sem dó. Vai além de ser coisa só ilegal, é cruel mesmo."

Tanto que também tem se tornado comum encontrar animais mutilados, com cortes a faca, nomes escritos em seus corpos, cortes nas nadadeiras. "Às vezes o pescador prende o boto a uma árvore, amarrando uma corda em sua cauda, para matá-lo quando precisar pescar. Mas se passa a fiscalização, eles o soltam rapidamente e o animal fica ferido, correndo o risco de perder a cauda e morrer", diz a pesquisadora. "Esses pescadores estão infringindo a lei. E não estamos tendo reforço da fiscalização para evitar isso", queixa-se.

Com a procura pela piracatinga ativando a matança, o mercado da superstição ressurgiu, sendo os amuletos encontrados em locais como o famoso mercado Ver-o-Peso, em Belém.

A forma de capturar o peixe também está se sofisticando, com a criação de outras formas de captura que vão além das caixas de armazenamento, como a construção de "currais" nos rios.

"A estrutura é tão organizada que há pessoas dando cursos sobre as técnicas para matar o boto", relata Migueis. Há toda uma cadeia, na qual os matadores fornecem o boto. Mas, na prática, qualquer pescador pode tentar matar o boto, a custo zero.

Tanto o Ibama quanto o Ministério da Pesca foram procurados pela reportagem para comentar a matança, mas nenhum dos órgãos se pronunciou. / G.G.

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