Pesquisa avalia relação entre doenças e conservação

Os queixadas e catetos de todos os fragmentos florestais de fazendas e assentamentos, que fazem limite com o Parque Estadual do Morro do Diabo, no extremo oeste de São Paulo, estão na mira da veterinária Alessandra Nava, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Ela coordena uma pesquisa inovadora, no campo da Biologia da Conservação, investigando a relação entre doenças em humanos e animais e o grau de fragmentação florestal ou degradação ambiental. É sabido que os animais silvestres e domésticos transmitem doenças uns para os outros e, em alguns casos, também para o homem. Também é conhecido o efeito negativo da fragmentação florestal sobre as populações de animais silvestres, que sofrem com a perda de abrigo, alimento ou mesmo das condições mínimas para reprodução e/ou manutenção da diversidade genética. Mas não há estudos que aprofundem a relação entre a alteração dos ecossistemas e a disseminação de doenças. Para estabelecer as possíveis correlações, Alessandra vem coletando e analisando o sangue dos queixadas e catetos do Pontal do Paranapanema, sejam eles de grupos que habitam as áreas alteradas ou o parque. Os taiassuídeos, como podem ser designados os queixadas (Tayassu pecari) e catetos (Tayassu tajacu), são animais importantes na dinâmica florestal, pelo seu tamanho e pelo consumo, dispersão e predação de muitas sementes da Mata Atlântica. Eles também são extremamente vulneráveis às alterações ambientais, naturais e promovidas pelo homem, muitas vezes desaparecendo dos fragmentos florestais antes mesmo das onças e antas, servindo, portanto, como espécies indicadoras do estado de conservação destas matas.A coleta de amostras ainda inclui, nesta primeira fase, alguns animais domésticos da zona de contato, como cães, porcos, bois, cavalos, carneiros, cabras etc. E, aproveitando outras pesquisas do IPÊ com felinos, paralelamente têm sido analisado o sangue de onças, jaguatiricas e gatos do mato para comparação com os gatos domésticos.?Costuma-se acreditar que os animais silvestres são os hospedeiros ou transmissores das doenças, mas verificamos o contrário: os queixadas e catetos do entorno do Morro do Diabo adquiriram várias doenças exóticas (ou seja, não nativas, não originárias da região), transmitidas a eles pelos animais domésticos?, comenta a pesquisadora. Entre estas estão, por exemplo, cinomoses, parvoviroses, herpes de vírus bovino e diarréia bovina. A transmissão não se verifica apenas entre os porcos domésticos e porcos selvagens, como poderia parecer à primeira vista, mas entre todos os animais analisados, exceto os felinos, que tem algumas especificidades como a imunodeficiência felina e a leucemia felina..Alessandra avalia, agora, as diferenças entre os grupos de queixadas e catetos de dentro e de fora do parque, para saber até que ponto aqueles que vivem em florestas mais intactas estão melhor protegidos contra as doenças. ?Sabemos que os grupos de dentro do parque são bem maiores ? os queixadas, por exemplo, andam em bandos de 60 a 70 animais dentro do parque, e apenas 5 a 10, nos fragmentos do lado de fora ? mas ainda não podemos afirmar até que ponto isso se deve às doenças, pois a caça também é uma pressão importante sobre as populações de fora do parque?, diz.Na pesquisa, ela vai avaliar, igualmente, se estas doenças são endêmicas na população de animais silvestres, ou seja, se ocorrem sem prejudicar ou causar mortes, revelando uma forma mais branda dos vírus ou maior resistência dos animais silvestres. E então será possível estabelecer a relação entre a manifestação das doenças e a integridade dos ecossistemas. O projeto de pesquisa ?Medicina e Conservação? teve início em 2001, com dois pesquisadores do IPÊ, e ganhou reforços em 2002 com a colaboração de dois veterinários, além da realização das análises de sangue no laboratório da Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP). Os recursos vieram de diversas fontes: cerca de US$4 mil da Gerald Durrel Foundation, US$20 mil da Conservation Food and Health Foundation (CFH) e em torno de R$40 mil da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza (para 2 anos).

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