Pesquisa no Rio capta diferença entre aluno em favela do tráfico e de milícia

Uma pesquisa feita em escolas municipais do Rio situadas em áreas ocupadas por favelas detectou diferença no comportamento dos alunos de acordo com o tipo de poder paralelo que as controla. Nas favelas dominadas por milícias, os alunos são mais disciplinados, mas também mais passivos. Nas controladas pelo tráfico, há mais casos de indisciplina, mas os alunos são mais ambiciosos.

Márcia Vieira do Rio, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

"Talvez essa passividade esteja ligado ao fato de o controle da milícia ser muito mais rígido do que o imposto pelo tráfico", acredita a socióloga Angela Paiva, uma das coordenadoras da pesquisa "A escola e a favela", feita pela PUC-Rio em quatro regiões da cidade.

O depoimento de um professor que trabalha numa área de milícia deixa explícito esse poder: "Ela mantém a comunidade no limite, determinando o que é certo ou errado. Quem não vive de forma correta precisa sair da comunidade."

Outro professor, que trabalha nos dois tipos de favela, marca bem a diferença. "Nessa escola (favela com milícia), os alunos têm um nível de formação muito baixo. Lá (favela com tráfico), temos alunos bons, com mais acesso à informação." O desejo de sair da favela é mais frequente entre os alunos de comunidades com tráfico.

Inclusão. Durante dois anos, os pesquisadores da PUC-Rio ? comandados por Angela e pelo sociólogo Marcelo Burgos ? entrevistaram 42 professores e 9 diretores, além de 20 lideranças das favelas e 16 monitores de projetos sociais. Chegaram à conclusão de que os problemas da favela, sobretudo a violência cotidiana, acabam invadindo a sala de aula. Ou seja: essas escolas não conseguem oferecer um ensino de qualidade nem exercem seu papel de instrumento para inclusão social dos seus alunos.

"Na favela há uma confluência perversa", afirma Angela. "Muitas vezes faltam professores nas escolas, não há funcionários suficientes, as aulas são suspensas por causa de tiroteio, a família não acompanha o desempenho escolar dos filhos, as crianças não têm um ambiente tranquilo para estudar", acrescenta.

O depoimento de uma professora revela a falta de confiança na educação como caminho para mudar a realidade de milhares de crianças dessas comunidades. "Quando são pequenos, os meninos até sonham, mas quando vão crescendo, vão perdendo isso. Dos 9 aos 11 anos, o sonho já passou", relatou a professora.

A conclusão, segundo Ângela, é que a favela "puxa para baixo". "As próprias crianças começam a achar muito cedo que não adianta estudar, que a escola não vai levar elas muito longe", diz.

A pesquisa detectou duas tendências. Os professores do primeiro segmento (alfabetização ao 5.º ano) fazem o possível para reverter as adversidades. "Eles tentam furar esse bloqueio imposto pelo estigma da favela. Muitos conseguem conquistar o aluno pelo afeto e se esforçam para que os meninos passem em provas para entrar no colégio Pedro II (federal) ou na escola técnica do Estado, que são vias de acesso ao sucesso", diz Angela.

A situação piora a partir do 6.º ano. "O aluno tem uma autoestima baixa, sente-se burro porque não consegue aprender. O professor tem de fazer um esforço dobrado, convencer a si mesmo e ao aluno de que vale a pena investir no estudo."

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