'Pesquisa sobre peso levou a falsas conclusões'

Especialistas atacam pesquisa que concluiu que sobrepeso ou obesidade de grau 1 trariam menos riscos de morte precoce

Entrevista com

MCLEAN, EUA, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h03

Um controverso estudo do governo dos Estados Unidos abalou nesta semana muitos que se sacrificam para perder peso. Isso porque observou que pessoas até 15 quilos acima do peso normal correm 6% menos risco de morte prematura que os mais magros (mais informações nesta página). Mas os extremamente obesos - com pelo menos 30 quilos acima do normal - correm risco 29% maior de morte prematura. Nesta entrevista, dois especialistas criticam o polêmico estudo: Thomas Frieden, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, e Walter Willett, coordenador do departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

Estar poucos quilos acima do peso faz mal à saúde?

Frieden: Sim. O sobrepeso traz riscos, mas há diferenças. Se você se exercita e cria massa muscular, ganha peso - e isso é saudável. Esse novo estudo é sobre taxas de mortalidade, ele não cobre diabete tipo 2 e outros problemas que aumentam os riscos à saúde com o sobrepeso. Willett: Os danos do sobrepeso dependem de como a pessoa o ganhou. Se alguém é forte e ativo, tem boa pressão sanguínea e bons níveis de glicose e colesterol, provavelmente corre risco mínimo. Mas se alguém engordou mais de 5 quilos, ganhou mais de 5 cm na cintura e tem pressão, glicose e colesterol altos, então o peso pode ser um sério risco à saúde.

Quem tem sobrepeso deve

tentar emagrecer?

Frieden: O importante é você fazer algo que consiga manter. Encontre atividades físicas das quais goste e pratique-as com mais frequência. Faça o mesmo com alimentos saudáveis.

Willett: A maioria das pessoas com sobrepeso o ganhou na idade adulta e quase todas terão alguma anormalidade metabólica, como pressão alta, por causa disso. Então, a maioria dessas pessoas vai se beneficiar da perda de peso, mesmo que seja de apenas 5%.

O que acharam das conclusões do estudo?

Frieden: Há duas grandes incógnitas. A primeira é o método correto de estudar a relação entre o IMC e as taxas de mortalidade; isso ainda é discutido por cientistas. A segunda é se o Índice de Massa Corporal (IMC) é a melhor medida. Sabemos que ele é imperfeito, mas é fácil de usar em grandes estudos epidemiológicos. E algumas populações têm a saúde em risco mesmo com IMC baixo. A circunferência da cintura pode ser melhor para alguns tipos de análises.

Willett: O problema mais sério desse estudo é que o grupo de peso normal mistura pessoas magras e ativas, fumantes e pacientes com câncer e outras doenças que causam perda de peso, além de idosos. Como os grupos com sobrepeso e obesidade foram comparados a essa mistura de pessoas saudáveis e doentes, isso levou a falsas conclusões de que ter sobrepeso é benéfico e de que a obesidade de grau 1 não traria riscos extras. Essas novas estatísticas são completamente enganosas para qualquer um que esteja interessado em saber qual é o seu peso ideal. Esse estudo é uma grande bobagem. / AP

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