Pesquisador alertou para a ação do homem sobre o ambiente

Cientista apresentou a primeira grande síntese das paisagens naturais brasileiras e foi pioneiro das pesquisas ambientais

JOSÉ GOLDEMBERG, EX-REITOR DA USP, O Estado de S.Paulo

17 Março 2012 | 03h06

Artigo

Conheci Aziz como colega na universidade desde 1950 e como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Aziz Nacib Ab'Saber era mais que um geógrafo e fez contribuições importantes em ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia e arqueologia.

Seus estudos, ao longo principalmente das décadas de 50, 60 e 70, são fundamentais para a compreensão, por exemplo, dos processos de especializações geomorfológicos, climáticos e florestais (hoje da biodiversidade) amazônicas, utilizando-se de interpretação original baseada nas mudanças do clima ao longo do Período Quaternário e a sua influência na compartimentação do meio natural sob a forma de "refúgios". Com base nesses estudos, apresentou a primeira grande síntese das paisagens naturais brasileiras, expressa no seu famoso trabalho Domínios Geomorfológicos do Brasil.

Pioneiro das pesquisas hoje ditas ambientais no País, Ab'Saber foi um legítimo herdeiro da tradição francesa e alemã em geografia em que concebia os fenômenos e processos que modelam os espaços e regiões de modo integrado, com ênfase na evolução, estrutura e dinâmica das paisagens naturais.

O que sempre me impressionou nele foi não só a competência específica nessas áreas, mas uma visão do conjunto do que é o ambiente natural onde vivemos e o quão vulnerável ele pode ser à ação do homem.

Já em 1954, preparou um trabalho sobre a cidade de São Paulo (O Sítio Urbano da Cidade de São Paulo), publicado por ocasião do Quarto Centenário, no qual apresenta sua original interpretação sobre a evolução da capital paulista tendo como base a compartimentação do seu relevo e da sua hidrografia e que é uma referência fundamental para a compreensão da geografia da cidade.

Uma característica de toda sua vida profissional foi sua total independência e coragem, que o levou a se envolver em controvérsias sobre grandes projetos desenvolvimentistas no País, como a transposição do Rio São Francisco, a expansão das culturas homogêneas e o Código Florestal.

Como colegas, participamos dos grandes debates promovidos pela SBPC no passado sobre os grandes problemas nacionais, incluindo energia nuclear. O que ficou claro é que suas simpatias políticas nunca afetaram o seu julgamento científico no que se refere às questões ambientais e preservação da natureza, o que levou a um afastamento do governo Lula e do PT, dos quais era inicialmente muito próximo.

O projeto científico que envolve Ab'Saber que conheço melhor é o Floram, desenvolvido em colaboração com Jacques Marcovitch, Werner Zulauf, Leopold Rodés e que apoiei como reitor da USP na ocasião.

A ideia do Floram era promover a implantação de florestas em larga escala (8 milhões de hectares), capturando parte do carbono emitido pelo desmatamento e queima de combustíveis fósseis que está mudando a composição da atmosfera e provocando mudanças climáticas. Isto foi em 1989, antes que preocupações com mudanças climáticas se tornassem populares e mostra a visão abrangente de Ab'Saber sobre essas questões.

Nos últimos anos, dedicou-se aos estudos sobre a Amazônia, no qual se destacam suas contribuições sobre o Zoneamento Ecológico-Econômico enquanto instrumento para o planejamento ambiental e territorial daquela região com vistas, sobretudo, em sua visão, em medidas voltadas para a conservação dos seus ecossistemas. Foram esses estudos que levaram Ab'Saber a se insurgir contra as modificações aprovadas na Câmara dos Deputados em 2011 no Código Florestal.

Sua vida é um excelente exemplo do que temos de melhor em ciência e integridade pessoal e profissional no Brasil.

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