Pesquisadores de federal vão estudar o tratamento

Eles querem descobrir se o medicamento tem fundamento científico para ser indicado para outros pacientes

O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h07

Surpresos com a evolução inesperada da gangliosidose em Vitor - que superou em mais de dez anos a expectativa de vida -, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiram estudar se o tratamento desenvolvido pelo engenheiro Adolfo Guidi tem fundamento científico para ser indicado para outros doentes.

A pesquisa será liderada pelo geneticista Roberto Giugliani, professor titular do Departamento de Genética da UFRGS e coordenador do Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp), que estuda a gangliosidose há 20 anos.

"A doença causa uma deterioração neurológica progressiva, pois os neurônios são impregnados por uma substância (Gangliosídio GM1) que deveria ser naturalmente degradada pelo organismo por meio de uma enzima (beta-galactosidase). Como essa substância não é reciclada naturalmente, ela se acumula nas células neuronais, atrapalhando o seu funcionamento."

Segundo o pesquisador, o gangliosídio GM1 é um tipo de lipídio que é produzido e degradado pelo organismo, mantendo-se em quantidades equilibradas. A beta-galactosidase é a enzima que degrada esse lipídio e tem também uma ação secundária na intolerância à lactose.

Nas pessoas com gangliosidose, um erro no código genético faz com que a enzima seja produzida de forma defeituosa, por isso o lipídio não é degradado adequadamente, atrapalhando o funcionamento do organismo.

Terapia. A pesquisa de Giugliani vai associar terapia genética e celular. O grupo vai alterar um gene para que ele passe a produzir a enzima beta-galactosidase de maneira correta. Essa técnica de terapia genética e celular já é testada de maneira experimental em camundongos para a mucopolissacaridose do tipo 1.

"O Adolfo desenvolveu um tratamento caseiro para essa doença. Vamos avaliar em laboratório, com rigor científico, se esse tratamento tem fundamento. Para isso vamos aplicar a nossa metodologia usada para outras doenças parecidas", diz.

Por ser um dos principais especialistas do Brasil, Giugliani chegou a ser procurado por Adolfo há mais de dez anos, quando Vitor começou a tomar o produto desenvolvido por ele, mas o caso não chegou a ser estudado.

"Naquela época, o tratamento que ele desenvolveu, para nós, pesquisadores, não tinha um fundamento científico claro. Mas hoje, observando a evolução do Vitor, estamos bem satisfeitos. A doença progride usualmente de maneira mais grave. Ainda é um caso isolado, mas aparentemente o Vitor evoluiu mais lentamente que o esperado e estamos dispostos a avaliar esse tratamento", afirmou o pesquisador, que emendou: "Pela literatura médica, ou ele já teria morrido ou estaria num quadro bem mais grave, vegetativo".

Giugliani enfatiza, no entanto, que o tratamento caseiro descoberto por Adolfo não estacionou a doença, apenas a fez progredir mais lentamente. Por isso, ele não recomenda o uso desse produto por outros doentes, pelo menos por enquanto. / F.B.

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