Peter Brook: retrato do artista quando místico

Aos 84 anos, diretor inglês estreia Eleven and Twelve, resultado de cinco décadas de trabalho e que reflete sua busca espiritual

Fiachra Gibbons, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

O olhar de Peter Brook transpassa as pessoas. Enquanto estende a mão, imagino como se sentiam atores cujas esperanças caíam por terra quando seus olhos azuis pareciam tirar a temperatura de suas almas. Para encontrá-lo, é preciso atravessar o palco do antigo teatro de variedades, em Paris, que ele chama de sua mesquita, e subir uma escada em caracol até a plataforma onde fica empoleirado como um homem do Himalaia.

Antes de encontrar o mais influente diretor teatral dos últimos 60 anos, telefonei a um dramaturgo e a um diretor britânico para saber o que acham dele hoje. "Ainda creio em Deus, mas não acho mais preciso ir à igreja", disse o escritor. "Ele tem o melhor cérebro desde Brecht, mas não faz nada importante há 20 anos. Culpa dos franceses. Mofou como o queijo deles." O diretor lamentou que Brook tenha virado vaca sagrada, como o teatro sagrado que tanto criticou. "Se soltasse pum no palco, diriam que é gênio. O mito matou o homem." É claro, há o perigo de esquecer o que ele fez. Após ganhar fama com o espetáculo faustoso, despiu os palcos e fez a imaginação do público trabalhar para ele. Em Marat/Sade e The Ik, reduziu o teatro ao corpo; com Orghast, dispensou palavras em busca de grunhidos. Parece sempre buscar o choque do simples, ressuscitando o tradicional para mostrar que é preciso pouco para enfeitiçar. Mas suas ideias, outrora revolucionárias, têm sido tão absorvidas pelo convencional que se tornaram banais.

O Brook que encontro é mais ele próprio, mais humano, como quem encontra equilíbrio entre o monstro e o místico. O homem de quase 85 anos é mais apressado que o homem de 40 e poucos que incendiou a Royal Shakespeare Company, o West End e a Broadway numa febre de invenções, esgotando possibilidades do teatro convencional, para então desaparecer no deserto com atores-discípulos.

Brook passou a se exilar nos anos 60, após escrever O Espaço Vazio, cuja abertura virou base do teatro moderno: "Posso pegar um espaço vazio e chamá-lo de palco nu. Um homem anda por este espaço vazio, enquanto outro o observa, e isto basta para um teatro acontecer." Nos anos seguintes, testou teorias e os limites da sua trupe em cada aldeia africana em que estendeu seus tapetes. Trabalhou Orghast e sua adaptação de A Conferência dos Pássaros, viajando do Saara ao delta do Niger.

Os resultados mudaram o teatro. Mas só agora Brook termina a peça que gestou por 50 anos e incentivou tal jornada, Eleven and Twelve. Num palco quase vazio, coberto de areia, com atores do mundo todo, é a essência de Brook: conciso, falsamente simples, profundo e mágico. A obra, que chega a Londres mês que vem, baseia-se no relato de Tierno Bokar, místico muçulmano do Mali que pôs fim a uma guerra religiosa ao admitir a razão dos adversários. A história de disputa entre sufis sobre a possibilidade de repetir uma oração 11 ou 12 vezes é alegórica sobre o fundamentalismo. E serve como crítica ao colonialismo de franceses de Mali que colocaram um grupo contra o outro enquanto as exigências de independência cresciam, às vésperas da Segunda Guerra. Mas é mais poderosa como parábola do sacrifício exigido pela tolerância, já que Bokar é posto no ostracismo pelo povo.

"Usar violência é levar a preguiça ao extremo. A guerra parece um esforço, mas é o recurso fácil", diz Brook. Para ele, a tolerância mostrada pela ONU, com compromissos pouco claros e negociações duras, não é tolerância. "Não significa encarar dificuldades e dizer: quaisquer que sejam nossas divergências, nada será motivo de violência. Esta é a opção difícil, a opção de Tierno, consciente de que terá de pagar por ela."

Brook tentou encenar a história há quatro anos, mas não ficou satisfeito. Herdou o perfeccionismo e a experimentação dos pais, cientistas. No livro de memórias Fios do Tempo, conta que o pai às vezes voltava para casa e via a mulher fazendo experiências em vez de preparar o jantar. Inventor do laxante que levaria o nome da família e lhe daria fortuna, o pai pretendia melhorar tudo, e nunca saía sem lápis e folha de papel para provar suas convicções.

"Quando jovem, experimentei de tudo", conta. Homens, mulheres, ideias, drogas. "O LSD me abriu para percepções que não conhecia." Os temas de Eleven and Twelve do deixar partir e da necessidade de transmitir conhecimento coincidem com os de um homem octogenário. "Tento deixar uma marca viva nas pessoas, na qual possam refletir. Tenho horror ao teatro ideológico ? Shakespeare nunca nos disse como pensar. Tenho respeito por Brecht, mas o caminho dele não é o meu." A peça mostra outro aspecto do diretor: sua busca incessante pelo espiritual. Há mais que um pouco do sufi em Brook. E, em Bokar, ele encontrou um herói que iguala seu mestre espiritual, o russo-armênio George Ivanovitch Gurdjieff, cujos Encontros com Homens Notáveis, relato em parte imaginário de perambulações entre sufis, Brook filmou no Afeganistão.

Brook foi abordado por alguém, na noite em que vi a peça, para dizer-lhe que a meditação sobre a busca da verdade e o preço que ela exige pode ser entendida como justificativa do terrorismo suicida. "Imagino", observou Brook em tom sarcástico, "que esse jovem esteja satisfeito consigo mesmo por ter descoberto o que se esconde por trás do que se diz a respeito da não-violência ? mas a ponto de encorajar o terrorismo suicida?" Por um segundo, vi a ira nos frios olhos azuis.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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