Denise Andrade|Estadão
Denise Andrade|Estadão

Peticov faz 70 anos e festeja com instituto

Pintor é o criador da torre de néon do edifício Saint Honoré na avenida Paulista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2016 | 04h00

Em 1989, o pintor paulista Antonio Peticov, que completa hoje 70 anos, apresentou na 20ª. Bienal Internacional de São Paulo um projeto para deixar a cidade mais colorida, que previa o plantio de árvores com as cores do arco-íris ao longo do Rio Pinheiros. Por falta de patrocínio, ele não foi adiante, mas sobrevive numa pintura de 1991. Seguindo o princípio cromático do arco-íris, ele projetou, em 1995, uma escada de néon de 42 metros de altura, baseada em sua escultura The Ladder (de 1981). Essa deu certo. Está instalada até hoje no topo do edifício Saint Honoré, na Av. Paulista.

A escada iluminada, com mais de 500 metros de néon na armação metálica, é um dos marcos públicos da obra de Peticov, que, comemorando seu aniversário, inaugura hoje, em sua casa no Brooklin Novo, um instituto que leva seu nome. Já visitada por colegiais, atraídos pela coleção de inventos e quebra-cabeças do artista, a casa-ateliê de Peticov, transformada na sede do instituto, vai receber o público para debates, cursos e visitas guiadas por suas dependências, incluindo aí uma biblioteca com mais de 8 mil volumes.

Peticov é um caso singular no mercado de arte. Por ser avesso à criação em série, não é um pintor cuja obra o público reconhece à primeira vista, como a de seu ex-assistente Vik Muniz, hoje mundialmente conhecido e presente em coleções e museus internacionais. Peticov nem galeria tinha até pouco tempo. Mas já prepara uma exposição para a Galeria Nuvem, em Pinheiros, que tem entre seus artistas muitos orientais.

Peticov, é certo, passou quase 30 anos de suas sete décadas de existência fora do Brasil. Exilado, morou primeiro em Londres, na casa do amigo Gilberto Gil, onde se instalou em 1970. Ficou lá um ano. Mudou-se para Milão, depois para Nova York e só retornou ao Brasil em 1999. Fez exposições na Itália e EUA, participou de coletivas até em Hong Kong, mas manteve distância de marchands e galeristas. Não reclama. “Vendo meu trabalho sem intermediários, embora não pelo preço de Vik Muniz”, brinca.

De fato, sua relação com a arte não passa pela legitimação do mercado. Ele sobreviveu desenhando capas de discos, de livros, vendendo gravuras e pintando o que queria, mudando como uma camaleão das telas – são mais de 1000 catalogadas pelo artista, entre elas algumas geométricas, porque, diz ele, “ninguém escapa da herança concreta”, incontornável, segundo Peticov, que até ilustrou poemas de Haroldo e Augusto de Campos para um painel da Escola Anne Sullivan.

Entre outras obras públicas realizadas por ele encontra-se também outro painel de 1990 com a imagem anamórfica do escritor modernista Oswald de Andrade, instalado em 1990 na estação República do metrô, onde se destaca o mandamento máximo do autor do Manifesto Antropófago: Tupy or Not Tupy. O provocador Oswald é um dos ídolos de Peticov, que, na juventude, foi hippie e pagou um preço alto por isso. Em 1967, ao participar pela primeira vez da Bienal de São Paulo, recebeu o então ditador Costa e Silva com um ramalhete de flores, sendo crucificado pela direita e pela esquerda.

“Ninguém entendeu que esse era um gesto de protesto, pois eu estava usando uma roupa preta, cheia de medalhas, evidente referência aos militares”. Performático, ele pertence à geração que experimentou novas formas de arte nos anos 1960 – e não só arte, mas drogas, sendo preso por porte de LSD, o que o levou a desenvolver sua carreira lá fora. “A Itália me fez crescer, não só pelo contato com os mestres clássicos como pela descoberta da arte povera”. Peticov volta agora à arte política: prepara uma série dedicada aos refugiados. “O tema dessa nova diáspora me toca”, justifica.

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