Petrobrás será minoritária em nova empresa

Diretor da estatal garante que 'não haverá estatização' do setor com a fusão entre Braskem e Quattor

Nicola Pamplona e Débora Thomé, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

A Petrobrás será minoritária na nova empresa petroquímica brasileira que deve sair da fusão entre Braskem e Quattor. A afirmação é do diretor de abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, que garantiu ao Estado que "não haverá estatização" do setor.

O executivo não quis dar detalhes sobre as negociações, mas defendeu a operação dentro da nova estratégia da companhia para o segmento, que prevê a criação de "uma petroquímica forte, de escala mundial".

A estratégia foi anunciada ainda em 2003, logo no começo do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2004, no primeiro plano estratégico da empresa sob nova gestão, o retorno da Petrobrás à petroquímica foi a principal mudança.

Na época, a estatal divulgou que retomaria investimentos em expansão da capacidade ao mesmo tempo em que atuaria como consolidadora das empresas do setor, processo que culminou com criação da Quattor e com a compra da Ipiranga por Petrobrás, Braskem e Ultra.

"Petroquímica é mercado mundial. Pode ser que (a fusão entre Quattor e Braskem) seja o caminho", afirmou Costa, em entrevista ao Estado, lembrando que outros setores, como o de alimentos, vêm passando por processo de consolidação semelhante.

As partes envolvidas já estão em negociações, mas vêm enfrentando alguns percalços, principalmente com relação a conflitos societários na Quattor. Essa semana, um obstáculo foi removido: autora de uma ação judicial contra o negócio, Joanita Soares de Sampaio Geyer vendeu suas ações na Unipar e desistiu de contestar a fusão.

Costa não quis adiantar detalhes das negociações, mas disse que a tendência é que a Petrobrás mantenha a postura inicial, de atuar como minoritária no setor. "Nada vai ser estatal. A empresa (resultante da fusão) vai ser empresa privada", ressaltou o diretor da Petrobrás. A empresa busca, inclusive, um sócio para a Petroquímica Suape, que inicia as operações já no ano que vem. O grupo Vicunha, parceiro inicial, desistiu do projeto. A tendência agora é a entrada de um grupo internacional.

Diante do início das negociações sobre a fusão Quattor/Braskem, a avaliação no setor é que o retorno da Petrobrás à petroquímica não obteve o resultado esperado. Observadores próximos dizem que a ideia de criar dois grandes grupos fracassou diante do elevado endividamento da Quattor. Costa discorda: "Não encaro nada como passo errado, foi o passo que tinha que ser dado naquele momento. Agora, há um novo processo de negociação, que não se sabe onde vai dar".

O executivo reitera que houve avanços importantes em ampliação da capacidade. Além da Petroquímica Suape, diz, foram construídas três novas unidades de propeno no País, garantindo insumo para o crescimento da produção de matérias-primas petroquímicas no País.

Além disso, Petrobrás e Braskem construíram a Petroquímica Paulínia SA, já em operação. A Quattor, por sua vez, inaugura nova unidade de polietileno no polo de Capuava, com capacidade de 200 mil toneladas por ano, em janeiro.

Projeto símbolo da retomada, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), porém, tem patinado na busca de parceiros. O primeiro interessado, o grupo Ultra, já não parece disposto a assumir o grande custo da obra. A Quattor, que tinha compromisso de participar, deve ser incorporada à Braskem. A Petrobrás já iniciou a terraplenagem e a encomenda de equipamentos, mas ainda não anunciou qualquer parceria no polo.

"Não estou com pressa de fechar (parcerias para) a segunda geração. Estou me dedicando agora à refinaria", diz o executivo. A percepção no mercado é que não há grande interesse pela obra no momento, já que o consumo foi afetado pela crise e há grandes projetos na Ásia prestes a entrar em operação, os maiores deles, em países do Oriente Médio: Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes.

No encontro anual da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), este mês, o plano de negócios apresentado pelo presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, reconhecia que "a crise econômica mundial reforçou o ciclo de baixa da petroquímica, fazendo com que projetos fossem postergados".

A expectativa da Maxiquim, consultoria especializada na indústria química, é que a demanda interna por resinas termoplásticas caia cerca de 3% em 2009. Já nos próximos anos, considerando polietilenos, polipropileno, poliestireno, PVC e PET, a procura deve crescer na faixa de 6% anualmente.

"As exportações devem cair, devido ao menor volume de excedente, já que a capacidade não subirá, e o mercado doméstico crescerá, ocorrerá também uma maior competição no mercado internacional", diz a consultora Solange Stumpf.

Costa vê de outro modo. "Há avaliações de que até 2020, a Bacia do Atlântico (EUA e Europa) vai fechar refinarias com capacidade somada de 8 milhões de barris por dia. E algumas atreladas a complexo petroquímico", comenta. "Vai haver um deslocamento da produção para países emergentes, como já ocorreu com outros setores", completa, citando a siderurgia como exemplo.

A estatal, portanto, mantém os planos para o Comperj, que deve iniciar operações em 2013, apenas com refino de petróleo para produção de combustíveis. A ideia é que, em 2014, entre a unidade produtora de matérias-primas petroquímicas básicas.

Questionado sobre uma possível participação da Braskem no projeto, caso a fusão saia do papel, o diretor da Petrobrás disse apenas que "vai ter um novo arranjo". "Como vai ser eu não sei, mas é claro que vai ter um novo arranjo."

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