Piada tem dono?

"O amor é a gasolina da vida: custa caro, acaba rápido e pode ser substituído pelo álcool." A frase do blogueiro Paulo Velho ganhou o mundo, mas seu nome não foi citado em lugar nenhum. Escrita num tweet pela primeira vez em 2010, a piada ganhou novos donos, foi parar em um programa de rádio, virou comunidade no Orkut e até frase do personagem de Charlie Sheen na série Two and a Half Men, através de um aplicativo no Facebook.

O Estado de S.Paulo

02 Julho 2012 | 03h08

"Foi um misto de surpresa com orgulho", conta Paulo Velho. "Primeiro o orgulho de descobrir que alguém realmente lia o que eu escrevia. Depois a surpresa de descobrir que alguém ainda se atrevia a repetir as minhas piadas. É muita coragem."

Piada tem dono? Na internet, fica ainda mais difícil reconhecer a autoria. Os blogueiros reclamam que a prática mais comum é a de assumir para si a autoria e omitir o crédito de quem teve a ideia original. É o famoso ato de "kibar", prática que já entrou até no dicionário informal.

"A ideia não é protegida pelo direito autoral. Ele protege a forma de expressão", diz Sérgio Branco, da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. "E o problema é que a piada está muito em cima da ideia,", diz. Mas há uma ética própria no humor. "Se eu for a um show de um humorista, ouço as piadas e me aproprio delas, isso é contestável. Mas e se são associadas com o senso comum? Para valer, o direito autoral tem de ser original."

O paradoxo da piada é que, na internet, uma frase vira piada. Uma montagem vira piada. A facilidade de compartilhar esse tipo de conteúdo faz com que muitas pessoas coloquem marcas d'água em imagens, numa tentativa de prender a autoria de uma piada. O problema é que muitas vezes as imagens nem são exatamente dos blogs em questão.

"Na internet, as pessoas deturpam a autoria", diz o professor. É o mesmo que acontece com os textos atribuídos à Clarice Lispector: uma "violação de direito autoral ao contrário". "O reaproveitamento de piadas sempre foi comum, e só agora tem essa discussão de autoria na internet."

Um dos sites de humor mais conhecidos no mundo é especialista nisso. O 9gag é um repositório de imagens que são compartilhadas incessantemente na web. Quem ganha o crédito é o site, que coloca nelas a sua marca d'agua. Em entrevista recente ao Link, Ray Chan, dono do site, saiu pela tangente: disse que o 9gag é uma plataforma para compartilhar coisas divertidas. "A marca d'água é uma forma de rastrear o post até o site, onde há o link para a fonte original", disse. "Recebemos e-mails de criadores de conteúdo nos agradecendo por dar mais audiência aos sites deles", disse Chan, que participa do Festival YouPix nesta semana em São Paulo (leia abaixo).

No Brasil, o responsável indireto pela expressão "kibar" foi Antonio Tabet, o criador do site de humor Kibe Loco, que não respondeu ao pedido de entrevista. Frequentemente criticado por não dar crédito nem links, ele ganhou vários inimigos e inspirou em 2007 a criação do manifesto 'Usura Não', capitaneado pelo blog de humor Treta.

"Tem muita gente ainda presa a ideais obsoletos. Não entendem que você pode dizer que a sua brilhante obra prima é derivada de uma ideia do 'Blog do Fulano'. Ninguém vai achar ruim se você for sincero. Qualquer forma de referenciar a origem do conteúdo somente tem a agregar valor ao post e ao blog que o publicou", diz Ivo Neumann, responsável pelo Treta.

Ele nem se lembra a primeira vez que foi "kibado". "É algo comum quando se tem um blog." Sem citar casos, diz apenas que foram "milhares de situações" em que "o blogueiro se considera esperto ao fazer uma imagem de Photoshop com uma piada que viu em algum lugar e posar de 'pai da ideia'".

O que se deve fazer quando sua piada é roubada? Sérgio diz que um processo é uma ação extrema, mas vale pedir para citar a fonte. Paulo descarta a hipótese de processar. "Os advogados iam ficar com 10% da piada", ri.

Tatiana de Mello Dias

tatiana.dias@grupoestado.com.br

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