PIB chinês pode não ser tão bom no longo prazo

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) que a China divulgará hoje provavelmente vão fazer inveja ao globo cansado de recessão. Para alguns analistas, a terceira maior economia mundial vai superar facilmente a meta de expansão de 8% fixada pelo governo.

David Pierson*, LOS ANGELES TIMES, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2009 | 00h00

As exportações chinesas já se recuperam. Dezenas de milhares de trabalhadores demitidos estão sendo recontratados. Ações e imóveis também estão em vias de recuperação.

Mas, embora admitam que as medidas adotadas por Pequim permitiram que o país atravessasse os momentos piores da crise, alguns economistas questionam se essa recuperação é sustentável. Outros afirmam que grande parte do crescimento decorre de investimentos em estatais ineficientes e as atuais medidas de estímulo poderão desviar o país da necessária reforma para manter equilibrada a economia.

"As medidas estão levando a economia no sentido exatamente oposto", afirmou Yasheng Huang, professor da Faculdade Sloan de Administração do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e um dos principais críticos da estratégia chinesa. O fator fundamental da recuperação é um pacote do governo de US$ 585 bilhões e um volume impressionante de empréstimos para novos bancos, de US$ 1,27 trilhão, este ano. A injeção de capital manteve a indústria a todo vapor, preservou o emprego em nível razoável e permitiu investimentos em infraestrutura.

Pequim também aumentou os gastos da saúde, educação e planos de pensão. Para estimular o consumo interno, o governo ofereceu subsídios para a compra de carros mais econômicos e de eletrodomésticos. Mas alguns se queixam de que tais medidas continuam favorecendo as grandes companhias estatais, em detrimento das pequenas empresas privadas.

ESTATAIS

"A maioria dos bancos só empresta às grandes estatais, que não precisam", comentou Liu Lin, gerente de vendas de uma pequena indústria privada produtora de alumínio, do sul da China. "Para um pequeno empreendedor, é quase impossível obter capital para começar."

Nas últimas semanas, as autoridades alertaram que haverá excesso de capacidade em dez setores básicos, como aço, alumínio e até tecnologia verde, como as turbinas eólicas. A China procurará descarregar a produção excedente no exterior, o que poderá piorar as relações comerciais já complicadas.

Nos últimos meses, Estados Unidos e China tiveram atritos a respeito de pneus, aves e autopeças. Agora, os EUA investigam as importações chinesas de tubos de aço em busca de evidências de dumping e subsídio.

Esses problemas só se resolverão quando as autoridades controlarem o crédito concedido com facilidade exagerada às companhias mais ineficientes. Esse dinheiro mal administrado também alimenta a preocupação com novas bolhas de ativos nos setores imobiliário, financeiro e de commodities.

"Quando os bancos concedem empréstimos com tanta facilidade, a gente deve ter medo", disse Louis Kuijs, economista sênior do Banco Mundial em Pequim. "As autoridades chegaram à conclusão de que o risco de declínio do crescimento é tão sério que preferem manter o plano expansionista."

*David Pierson é jornalista

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