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Pichadores enxergam 'quebra-quebra' como ato político

Enquanto o carro da TV Record pegava fogo em frente à Prefeitura, um jovem com o rosto coberto surpreendeu a todos em um gesto suicida. Subiu na capota do furgão, no meio às labaredas. Ficou 5 segundos, arriscando-se a cozinhar com os braços levantados, e pulou, para escapar e ser aplaudido por cerca de 200 pessoas que participavam ou testemunhavam o quebra-quebra no centro na terça-feira.

BRUNO PAES MANSO, Agência Estado

20 de junho de 2013 | 08h40

A disposição ao risco, a obsessão pelas alturas e a desobediência civil sem escrúpulos revelaram para a cidade uma massa de anarquistas urbanos que há quase três décadas mantém uma relação de agressividade com a cidade: os pichadores. Nesta quarta-feira, eles engrossam a massa dos Black Blocks, nome dado ao grupo de pessoas que apostam na destruição de bens materiais como forma de fazer política. Eles integraram a tropa de choque dos protestos pela redução da tarifa, onde a violência acabou tendo papel importante na pressão aos governantes.

"O picho nasceu no movimento punk nos anos 1980 e sempre foi anarquista. O pichador prega a desobediência civil. É (Mikhail) Bacunin (pensador anarquista) na veia", disse um dos pichadores, que pediu para não ser identificado e que ajudou articular a participação dos pichadores nos protestos.

Durante as passeatas, os pichadores, que costumam se encontrar em bares vizinhos ao Largo do Paissandu, vindos principalmente de bairros das periferias da cidade, criaram o movimento Pixo Manifesto Escrito, com página no Facebook em que também defendem a retirada da PEC 37 (que tira poder de investigação dos promotores) a ser votada no Congresso.

Eles picharam as fachadas da Prefeitura, do Teatro Municipal e o monumento do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, na Praça do Patriarca, além de participarem das depredações e incêndios. Assim como eles se arriscam cotidianamente a vida para revelar o nome de seus grupos em pontes e monumentos, nesta quarta-feira eles subiram pelas paredes da Prefeitura e nas altas estruturas dos monumentos que foram vandalizados. Nos primeiros protestos, picharam dezenas de coletivos.

A intenção era canalizar as energias para ações que fossem além do exibicionismo nas paredes, que costuma motivar a maioria dos integrantes da cena na cidade. Entre as frases pichadas estavam "R$ 3,20 é roubo", críticas à PEC 37, mas também havia nome de grupos de pichadores de São Paulo, como "Pub Crew, PRT DK e TR Roots", com suas letras rebuscadas que há décadas, junto com a de outros grupos, se espalham pelos edifícios.

História

Entre provocações históricas, pichadores já invadiram a Bienal de Artes para atacar as obras dos artistas e são incisivos na crítica aos grafiteiros que se vendem ao mercado. Atualmente, os mais respeitados são os pichadores que sobem pelo lado de fora dos edifícios para feitos que são considerados mais heroicos quanto mais riscos de vida corre o autor. A morte de pichadores que caem dos prédios não é fato incomum no meio.

Apesar da desobediência civil fazer parte do DNA anarquista dos grupos de pichadores, parte dos pichadores se assustaram com o quebra-quebra de terça. Houve críticas aos grupos que colocaram seus nomes nos monumentos, já que o objetivo era o anonimato para fortalecer as "pautas coletivas".

Também foi criticada por integrantes do grupo a destruição desenfreada das lojas e os saques. "Acho covardia quando não há PM. O nosso papel no enfrentamento com polícia foi fundamental. Sem PM, não tinha graça", disse. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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